29 de jan de 2009

MASCULINIDADE - As brincadeiras infantis masculinas

“...O fundo do poço é só o começo...”
Vejo o abismo...
As insustentáveis correntes que nos prendem ao machismo tanto podem limitar os movimentos como também tem o poder de prender os pés de um homem ao pico sólido de um penhasco. Neste sentido, por mais que um dia todos os homens tenham desejado, no mínimo, saltar do alto da torre que os isola da humanidade, as correntes o impedem de um mergulho profundo no abismo que separa o homem do ser humano. Presas aos pés, as correntes evitam a queda irreversível que o levaria inevitavelmente de encontro ao chão. É preciso ter muito mais que coragem para jogar-se do ápice de um precipício e não vislumbrar a possibilidade de retorno.
Não se enganem “o mito da rivalidade feminina” tem como contraponto “a realidade da competitividade masculina”, estimulada desde nossa tenra infância, nas nada inocentes brincadeiras infantis.

Nos campos de futebol vemos o início do conflito físico, a luta entre pequenos gladiadores se dá pela disputa externa ao ser, apenas o uniforme que cobre nossa superfície define o lado em que estamos e os outros meninos, também vestidos com seus elmos dourados, nos separam de nosso objetivo: "a vitória".
É nas brincadeiras de esconde-esconde que aprendemos a camuflar os sons de nossa respiração, controlar as expressões de intensidade de nossa ansiedade, iludir os olhos de nosso oponente e correr solitários como Forrest Gump, em busca pela nossa própria “salvação”. Temos que ser mais velozes que "papa-léguas", mais rápido que "o outro" para aprendermos o quanto estamos sozinhos no deserto da existência masculina.
É na disputa entre "polícia” e “ladrão” que definimos qual será o nosso código de honra. Que nos torna favoráveis ao "índio" ou ao "cawboy norte-americano" ao longo da vida. É com a arma na mão que o menino passa a compreender que entre homens não existe companheirismo e sim normas de conduta. Normas que nos tornam comparsas ou aliados na guerra. Homens não ajudam outros homens, porque "homens de verdade" não precisam de ajuda, apenas esperam que a "irmandade" justifique e legitime nossos álibis. Homens são capazes de ocultar os crimes de outros homens, pois também são culpados dos mesmo crimes. E a quem devemos cobrar favores? Eis que assim nascem os pequenos príncipes de Maquiavel. O respeito às regras do jogo, as normas da vida masculina geram a idéia ou sensação que nos identifica como semelhantes. E só! Isso é ser macho, meu herói.
Nas entrelinhas dos jogos de nosso sonho infantil de longa duração, ser homem significa começar saber que existe no fundo do abismo de nossa existência há uma gélida angústia, uma fria e cinzenta solidão. Aos poucos, nos acomodamos ao aprendizado. Somos robotizados, sós e alienados de nossos iguais. Tentamos de um modo meio estranho lutar: damos murros para trocarmos afagos. Xingamos demonstrando carinho e afeto na intenção de promover a sensação de dar ou receber um elogio. Aliviamos nas pancadas, a imaterialidade de nosso corpo ausente do outro. Mas tudo parece inútil. No silêncio e nas ameaças comprovamos que o mais forte não é o que mais bate e sim o que menos reclama.
Sem o toque, surge o medo, a repressão violenta, a homofobia. Brotam as armaduras da insensibilidade. Sem o contato, negligenciamos a prazer das emoções. Alimentamos a impossibilidade da compaixão sem a proximidade. E sem o tato, floresce a desumanização com o outro tão distante. A proximidade nos causa estranhamento e o estranhamento produz bastante medo.
Não nos permitem sentir a angústia do medo, transformam os meninos em máquinas para torná-los homens. Máquinas não choram. O fluído, o líquido salgado da lágrima pode enferrujar as armaduras de metal do super-herói. O "homem de ferro" da masculinidade foi forjado como aço sobre sua pele e formam-se as couraças. Como máquinas, somos seres frios e contidos em nossas demonstrações. "Neguem as emoções", gritam os generais do exército em que empunhamos armas e nos tornamos soldados. O alistamento militar é obrigatório e nenhum de nós pediu para ser recrutado. Somos limitados astronautas de mármore pisando na lua deserta do espaço íntimo, público e privado. Eis que a razão precisa negligenciar os sentidos e os sentimentos para manter-se no comando e afastar, do menino, a condição humana do ser. Somos conquistadores sem medo, desbravadores de florestas, navegadores na tempestade, temos que nos manter controlados. "Seu coração é gelado" e "sua alma é de pedra". E qualquer menino ou homem que não se enquadrar na ferocidade deste conceito, torna-se uma presa que deve ser simbolicamente abatida, "para o bem de todos". Ou o “macho” aceita a tal condição “biológica e orgânica inerente” que lhe foi socialmente construída e determinada ou será qualificado pelos demais competidores com o um intruso no ninho das fálicas serpentes. Seu eu será o do diminutivo do outro, o do ser inferior ao nosso, o tido como venenoso como fraco e menor aos nossos olhos: “a mulherzinha”.
Saibam mulheres, quanto mais próximos de nós mesmo e mais distantes das “máquinas de guerra”, maiores então são as violências físicas a serem enfrentadas, agressões psicológicas e os sorrisos de deboche contra o homem ou menino que negue o destino de ser “macho”. E garanto que vocês sabem muito bem, pois os valores da masculinidade levam em alta consideração “o heróico sacrifício” de nosso lado humano, mas não perdoam a morte interior de nosso “ser viril”. Por tal motivo, parece-me óbvio o porquê de muitos homens sentirem-se aliviados - e até mesmo chegarem ao choro - no aconchego dos braços de uma mulher.
Em nossa infância, mulheres não se apresentam tão próximas. Não são uma ameaça. E se “as menininhas” não ameaçam, não podem ser vistas como inimigas. Por mais contraditório que pareça, a idéia de ameaça não nasce do que se apresenta diferente, mas do que se mostra "igual". Um exemplo está na hora da procura do emprego na selva de pedra do capitalismo selvagem, por mais arrojado e empreendedor, quando nos deparamos com alguém com o mesmo potencial de conseguir o emprego, tal pessoa, "o outro ser" torna-se agora um inimigo em potencial. Quero dizer, esse candidato pode tomar nosso lugar, nos derrotar no jogo político que determina vencedores ou vencidos, fortes e fracos, homens e "mulheres". Na sociedade da disputa, aqueles que se apresentam com um potencial de igualdade tornam-se ameaçadores. Não temos medo de meninas quando brincamos de policia e ladrão, elas não impunham armas, são “café-com-leite”.

O “inimigo” é aquele que é visto como igual, em termos de capacidade, porque o chefe é superior. E a mulher para o homem é “naturalmente inferior”. Somos os chefes da casa, lembra do que seu pai falou?
Quando a mulher se apresenta com características do “eterno feminino”, no máximo, vocês podem nos causar receio ou respeito pela autoridade materna. Eis as palmadas da mamãe. Mas se uma mulher tenta quebrar esta regra que nos é imposta - e do qual nós impetramos a vocês também - e decide "jogar futebol tentando realmente vencer a partida e/ou fazer um goooooooool", esta mulher passa a ser tratada como "outro homem" e, infelizmente, garanto que irá apanhar bastante - como eu também apanhei para engolir o choro - para ser "respeitada".
Mas como pode? Ela apanha e não chora? Ela chora, mas é porquê é frágil?
Assim, a mulher passa também a nos causar um duplo estranhamento. Passa a ser vista como uma ameaça, um “macho” inimigo diferente e com um "outro privilégio". Pois alguém só pode ser um inimigo se disputa o mesmo poder, com a possibilidade de nos vencer. Se tiver a mesma força, tendo assim uma possível igualdade na disputa. Mas por que lhes deram o direito de chorar? Agora também me é possível compreender a lógica do machismo, vista de bem perto.A mulher que luta contra a submissão, perde os “privilégios das flores e da poesia”. Deixa de ser musa e ela se torna uma inimiga, uma estranha ameaça, o motivo contra o qual unem-se os homens.
Dentro desta lógica, quebrar as correntes do machismo é negar os privilégios masculinos numa sociedade patriarcal. Isso pode representar, no mínimo, um auto-isolamento ou incorrer no risco de ser tratado como fraco. Por muitas mulheres inclusive. O mocinho, o herói ou bandido visto por ele mesmo não pode ser fraco. Então o homem tenta fixar-se, com todas as suas forças, as correntes da masculinidade e acaba confirmando as bases de outra prisão. Porque aos olhos dos homens, ser humano significa uma entrega que as brincadeiras de criança não nos prepararam. Ser humano é não temer o perigo de sair do isolamento e ao ser ferido, sem vergonha, chorar. Ser humano é a possibilidade de dar um grito e, porém, não ouvir resposta de um lado ou de outro. Ser humano é ter que reconhecer a mulher como igual, em suas diferenças. Uma compreensão da qual, nós homens nunca fomos treinados.
Ao saltarmos do abismo, passamos nos conhecer e reconhecer no outro o igual. E isso nos causa medo e estranhamento. Na angustiante tentativa de pular ou não pular, muitos homens caem. A depressão não é um salto, é uma linha tênue que separa o homem de si mesmo. É o estado físico e mental do homem pendurado no abismo pelas correntes do machismo. E como o mundo é feito para nós homens, tentar militar fora deste campo é lançar-se ao limbo do indesejável, do lugar nenhum, do que não tem volta, quando o salto é um ato consciente. Lugar onde existem pouquíssimos galhos para serem agarrados. E no chão, podemos encontrar apenas a dureza cruel do solo. Quiçá, de uma profunda solidão. Homens não sabem pular cordas ou brincar de "amarelinha", porém, no fundo escuro de um precipício, a todos, homens e mulheres é permitido chorar. Eis o primeiro passo!

Texto: Patrick Monteiro

3 comentários:

Élida disse...

Parabéns pelo texto!
Não pude deixar de lembrar da frase do Albert Eintein que diz:
"Se for para a HUMANIDADE sobreviver temos de exigir uma maneira substancialmente nova de pensar."
É isso aí... vamos em frente!!
Beijos

Drica Leal disse...

Imagino a condição do autor do texto."Nem lá, nem cá", apenas gente.A liberdade pode ser mesmo assustadora, afinal, nunca vivemos outro mundo senão esse mundo de modelos engessados.As poucas pessoas despertas ainda estão engatinhando, titubeando, não sabemos o que poderá nascer dessas elocubrações e descobertas no futuro, mas me sinto aliviada e feliz ao constatar que sim, existem pessoas que, apesar do medo, apesar da solidão, preferem ficar libertas e acordadas!

Jaques disse...

Drica Leal
sai do movimento negro, mirando um alvo e descobri que ao tentar acerta-lo estava buscando acertar algo em mim. Foram diversas reuniões que eu ouvia em silêncio os Estudos do Nucleo Simone de Beavuoir. Até que num debate sobre aborto, "eu oprimido" gritei:
- Sitoteque!
Aos poucos, fui entendendo que "não se nasce mulher, torna-se", e aprendi que não é um pênis que faz alguém ser homem, mas sua criação. Agora não sou uma femea da especie, mas também não sou homem. E sofro muito pq no meu trabalho, nenhum macho da espécie fala comigo além de um oi. No máximo dois.
De bom, fica que o fim de qualquer opressão é só com enfrentamento, e diariamente vou, como uma formiga, fazendo um megafone de minha voz. Vez por outra, ao longe e ao fundo, encontro o eco de outro megafone que se comunica com o mesmo tom de voz, dizendo:
"e continuo acordada cantando"

Abraços
da Maça Podre da especie, Patrick.