31 de jul de 2010

O (anti) feminismo do Programa da Amanda e o Machismo na internet

O polêmico "Programa da Amanda"
Com flertes de ironia, sarcasmo, muito cinismo e banalizando a violência, o grupo Anões em Chamas não se diferencia das dezenas de comediantes Stand Ups que inundaram os veículos de comunicação, pós-fenômeno Youtube.
Produto da intolerância e da hipocrisia moral da classe média, assim como o humorista Danilo Gentilli (autor de piadas racistas e "de loiras burras"), a personagem “Amanda” é uma jovem (que se finge de) burra e dá dicas de como as "meninas" devem se comportar para manter seus namorados. Sejam eles mulherengos, possessivos ou violentos. Se fazendo de tola e infantil com a personagem, os seus atributos físicos da atriz sãomaliciosamente bem focalizados a cada cena, gerando "bons elogios" dos rapazes que acessam os vídeos na net.
Outro detalhe que chamou a atenção das Maçãs Podres é que tanto o roteiro quanto a direção dos vídeos da personagem “Amanda” são produzidos por um homem (Ian SBF), o quê torna ainda mais crítica a situação do grupo ao ridicularizar a violência doméstica e contestar a ideologia feminista.
Com mais de 2.120.000 acessos somados, gravações no canal Multishow e entrevista no programa de rádio do Pânico e revista Época, além de citações em dezenas de site do Google, a atriz Letícia Lima que interpreta a personagem “Amanda” – chamada de “a nova Amélia” - se transformou em mais um fenômeno de mídia.
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O humor preconceituoso
Sem associar os contextos sociais e econômicos em que as jovens são criadas, a personagem “Amanda” é esteticamente caracterizada de maneira bem atual, com notebook e usando roupas coloridas, mas seu comportamento é infantilizado, remetendo a regras das mulheres da década de trinta.
Com caras e bocas que insinuam o estigma da futilidade feminina, “O Programa da Amanda” reflete o conservadorismo e o revanchismo reacionário dos machos contra as idéias feministas, pois os temas abordados representam intencionalmente a falsa “ignorância feminina”, inclusive dando a entender que as mulheres que sofrem violência é porque querem. A individualização é intencional e reducionista, pois não leva em consideração os motivos porque a alienação das mulheres é tão necessária para a manutenção dos privilégios sociais, dando a futilidade como inerente ao comportamento das garotas e sem problematizar a origem de tais comportamentos.
O anti-feminismo declarado dos Anões em Chamas
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Lógico que reações indignadas vieram e os piadistas e fãs do programa se defenderam com argumentos do tipo: “vocês não entendem de humor” e “não sabem o que é ironia ou sarcasmo”. As subjetivas retóricas evasivas não bastaram e, em resposta aos questionamentos e protestos lançados por feministas, o grupo “Anões em Chamas” fez um vídeo no qual “Amanda” (vestida como executiva e agindo como intelectual) questiona as bases do feminismo, ridicularizando uma pseudo-militante e usando da homofobia como piada. E este é o segundo vídeo do grupo que é direcionado contra o feminismo.
Diante da polêmica, a atriz Letícia deu uma entrevista a revista Época que foi publicada no site Feminismo.org.br. Nela Letícia afirma que o feminismo é coisa do passado e que, no atual momento histórico, a sociedade oferece as mesmas oportunidades para homens e mulheres. Sendo este, o mesmo discurso usado na academia para legitimar as pesquisas de gênero intituladas de "pós-feminismo". Pesquisas que tentam reduzir o feminismo a questões limítrofes, como a ampliação do mercado de trabalho. Assim como o uso de piadas contra as lutas sociais também tem a função de deslegitimar as nossas reivindicações.
Diversas foram as opiniões formuladas sobre os vídeos em sites e blogs na internet. Centenas são os comentários nas páginas do Youtube que apresentam o “Programa da Amanda”. E a quase completa unanimidade brada em favor dos vídeos. Pior é que na página do site Feminismo.org.br, por exemplo, a matéria é publicada na íntegra, e sem nenhum questionamento ou problematização, dando a entender que as colocações da jovem atriz representam um “feminismo moderno”, talvez por isso os comentários se apresentaram favoráveis as colocações da entrevistada.

A lei Maria da Penha e os meios de comunicação
Devido a atual conjuntura política de enfrentamento contra a violência sofrida pelas mulheres, além da espetacularização dos casos da “Dra. Mécia Nakashima e Eliza Samúdio”, nos perguntamos se este tipo de humor pode ser considerado uma forma de violência simbólica contra as mulheres?
E aí, lembramos da responsabilidade social de canais como Youtube ou emissoras de TV na banalização da violência contra as mulheres, pois a lei Maria da Penha, em seu artigo 8º, prevê a coibição da violência doméstica nos meios de comunicação pregando “o respeito (...)dos valores éticos e sociais da pessoa e da família, de forma a coibir os papéis estereotipados que legitimem ou exacerbem a violência doméstica e familiar, de acordo com o estabelecido no inciso III do art. 1o, no inciso IV do art. 3o e no inciso IV do art. 221 da Constituição Federal”. Finalizamos o texto com uma frase curta e direta do Millôr Fernandes para quem tem o mínimo de censo crítico e humorístico:
“O homem é o único animal que ri e rindo ele mostra o animal que é”.

Texto: Ana Clara  Marques e Patrick Monteiro

22 comentários:

Anônimo disse...

Cara,eu não sei o que é pior...estes criminos machistas ou a grande massa de mulheres que ri de uma bosta destas....e mais ainda: as pseudo-feministas que fazem lá daquele site que fazem tudo parecer uma reles "questão de opinião".

Eu sinceramente não sei o que vai ser de nós mulhereres brasileiras se as coisas continuarem neste caminho.Pankake para disfarçar porrada de namorado/marido? Fingir que não apanhou para segura homem? Será que este video não é sobre um país islâmmico ou de regime taliban,ou merdas do tipo? Estamos todos perdendo o senso??

Daqui a pouco estão legalizando estupro!E pior: com o aval desta merda de pseudo-feminismo que reina neste país!

Anônimo disse...

nossa... parece que vcs não enxergam a crítica à violência doméstica que o quadro "Amanda" faz...

Maçãs Podres disse...

Anônimo2

Vejamos, você acha que cabe fazer uma "crítica engraçadinha" sobre estupro, pedofilia ou clitoritomia? Se não, por que é divertido fazê-lo sobre violência doméstica?
O que nós vimos uma enganosa tentativa de "satirizar" um tema nada engraçado.

Anônimo disse...

Adriano disse...
Perfeito! Por um momento achava q estava só em minha crítica silenciosa. Engraçado q assisti ao video por acaso, pois minha filha se chama "Amanda" e ela buscou o nome dela ne net. Fiquei estarrecido qndo assiti e pensei: "nossa, sou homem e me senti ofendido, o que as mulheres não vão achar disso?" Porém, mais surpreso ainda fiquei de ler a enxurrada de comentários - muitos de mulheres - aprovando o video.

Não sou contra humor - pelo contrário, sou "riso fácil", como dizem - adoro stand-up e qualquer cena que tenha graça. Desde que ela não seja preconceitusa e ignorante. E sim, é possível fazer graça inteligente, só se esforçar um pouquinho.
Setembro 07, 2010

Maçãs Podres disse...

pois é Adriano,
o humor era uma arma contra o poder ou repressão(vc sabe q existem charges históricas contra o antigo império e mornarquia portuguesa no Br, contra o kzarismo russo, entre tantas outras, e foram fundamentais na mudança do modo de pensar da população). Hoje vemos uma profusão de "programas" que satirizam pessoas tão fragilizados q não possuem poder se defender, é pura violência, insulto e intolerância estética. Basta assistir um dia de "Pânico na TV" para vomitar. E estes programas ainda inviabilizam a política ao banalizarem/tornarem simpáticos os corruptos/poderosos. Eis o bulling do "quarto poder", só não sabemos se ele ocorreu primeiro nas escolas e ganhou amídia, ou se está "mais intensos" nas salas de aula tb por causa disso?

Anônimo disse...

lógico que rindo o ser humano mostra quem ele é, exatamente porque assuntos polêmicos como esse, para serem absorvidos pela sociedade, são abordados a partir do humor, porque assim torna mais fácil de se lidar com eles e entendê-los. Da mesma forma que acontece com piadas sobre traição, sexo e tal. A sexualiade não é um assunto bem visto pela sociedade e a questao da violência doméstica é uma questão de ordem sexual. E enquanto não nos resolvermos com nossa propria sexualidade, sempre haverá polêmicas e maneiras criativas como o humor para se lidar com elas. Ou seja, isso sempre vai acontecer porque nunca uma sociedade conseguirá se deparar com o real (diferente de realidade) das suas questões.

Anônimo disse...

Sinceramente,não sei o que este comentário sobre sexualidade tem a ver com a questão....poderiam coletar e analizá-lo como mais uma "arma pos-feminista" que tenta dissimular a questão vigente da violência contra mulher.Então,é só porque não nos "resolvemos sexualmente" é que ocorem traições,violência doméstica e sexual?è assustador ver no que o movimento das mulheres se transformou aos olhos do "povão".mais nocivo ainda é esta "pretenção intelectual" destes indivíduos,que se utilizam de argumentos "filosóficos" como "real x imaginário","natureza humana" e outras bostas que andei venod por aí,tudo regado á "liberdade de expressão" ou "pontos de vistas diferentes referentes á realidade indivudual de cada um" claro...afee ><!

E uma dúvida: a lei Maria da Penha não poderia ser aplicada neste caso? Ela incluí violência simbolica.

isolda

Maçãs Podres disse...

Sim Isolda,
Segundo o art.8, parágrafo III -
"o respeito, nos meios de comunicação social, dos valores éticos e sociais da pessoa e da família, de forma a coibir os papéis estereotipados que legitimem ou exacerbem a violência doméstica e familiar, de acordo com o estabelecido no inciso III do art. 1º, no inciso IV do art. 3º e no inciso IV do art. 221 da Constituição Federal;"

Porém, e apesar de algumas feministas já terem colocado o tal programa na justiça, parece que a lei não tem sido aplicada neste contexto.

Anônimo disse...

Isso é falta de interpretação! me descupem vocês, mas se pensam que uma pessoa assistindo um vídeo como aquele da Amanda vai querer imitar é pq esse individuo é muito burro!

Maçãs Podres disse...

repetimos as perguntas:

Vc dá risada de estupro? Se não, qual é a diferença então de dar risada de violência doméstica?

(Anônimo disse...
Isso é falta de interpretação! me descupem vocês, mas se pensam que uma pessoa assistindo um vídeo como aquele da Amanda vai querer imitar é pq esse individuo é muito burro!)

Yuri disse...

Meu ponto de vista:
Eu me sinto no direito de, na minha privacidade, dar risada de estupro, assassinato, aborto, ou qualquer outra coisa mais cruel (incluindo violência contra homossexuais, dado que eu sou homossexual).
Acho que quando tentamos enquadrar o humor, ou qualquer discurso, em termos politicamente corretos, chegamos a um nível perigoso de censura. Não concordo com muita coisa que é dita, mas acredito que ela tem o direito de ser dita, justamente para que possa ser criado um diálogo sobre a situação em questão (nesse caso, violência doméstica e submissão feminina). O humor deve servir para desestruturar discursos estabelecidos e revelar processos sociais que ainda escondemos debaixo do tapete. Amanda, para mim, é um desses casos. Mau gosto? Pode ser. Mas, segundo o meu ponto de vista, o que algo como o programa da Amanda faz é justamente "coibir os papéis estereotipados que legitimem ou exacerbem a violência doméstica e familiar" ao trazê-los à tona de forma irônica e caricatural. Isso se chama humor.
Ou alguém aqui acha que Chaplin fez uma apologia ao nazismo em "O Grande Ditador"?

Maçãs Podres disse...

Yuri, para criarmos um debate dialético, leia este texto:

O riso como arma dos covardes
Posted by Túlio Vianna
A história é sempre a mesma. Um engraçadinho faz uma piadinha/brincadeira politicamente incorreta, alguém reclama indignado e a resposta vem da ponta da língua do idiota: “Era só uma brincadeira! Você não tem senso de humor?”
Esta resposta pré-fabricada que busca eximir de culpa o piadista por qualquer imbecilidade dita, nada mais é do que um truísmo que visa silenciar o debate sobre o preconceito expresso na “brincadeira”. Afirmar que o que foi dito era uma uma brincadeira é uma verdade óbvia, mas o simples fato de ser uma brincadeira não isenta o palhaço da responsabilidade pelo que foi dito.
O riso nem sempre é a arma de contestação social expressa no provérbio castigat ridendo mores (castiga os costumes rindo), utilizado com frequência como emblema de vários teatros. Este provérbio, cunhado por Jean de Santeuil no século XVII, a propósito da máscara de Arlequim, tem um antecedente muito mais revelador em Horácio que, no ínicio de suas Sátiras (1,1,24 s.), indaga: Ridentem dicere verum / quid vetat? (rindo se diz a verdade / quem impedirá?).
O riso nem sempre é um instrumento de crítica social. Muita vez, o riso é tão-somente um instrumento para se afirmar algo que se teme dizer a sério. Quem impedirá?
Sírio Possenti, grande estudioso das piadas como manifestação cultural, afirma que:
O humor nem sempre é progressista. O que caracteriza o humor é muito provavelmente o fato de que ele permite dizer alguma coisa mais ou menos proibida, mas não necessariamente crítica, no sentido corrente, isto é, revolucionária, contrária aos costumes arraigados e prejudiciais. O humor pode ser extremamente reacionário, quando é uma forma de manifestação de um discurso veiculador de preconceitos, caso em que acaba sendo contrário a costumes que são, de alguma forma, bons ou, pelo menos, razoáveis, civilizados, como os tendentes ao igualitarismo, sem dúvida melhores que os seus contrários.
POSSENTI, Sírio. Os humores da língua: análises linguísticas de piadas. Campinas: Mercado das Letras, 1998. p.49.
Então quando alguém se vale do truísmo “Era só uma brincadeira! Você não tem senso de humor?”, o faz no intuito de tentar persistir afirmando seus preconceitos sem ser contestado, pois amparado pelo manto covarde do riso.
Sim, eu tenho senso de humor, mas não sei rir da desgraça alheia. Não sei rir da escravidão, dos campos de concentração, da violência doméstica, dos espancamentos de homossexuais, nem de qualquer piada ou brincadeira que direta ou indiretamente faça troça da submissão de um grupo social por outro.
Se ser moderninho, divertido e criativo é zombar de minorias políticas, eu prefiro ser o babaca sem senso de humor que denuncia estes covardes que se escudam no riso para manifestar seus preconceitos.
A genialidade do humor está em zombar dos que oprimem e mostrar o quão ridículo são seus preconceitos. Riamos da classe média e de seus valores pequenos burgueses, dos homófobos posando de machões, dos machistas tomando inevitáveis foras de mulheres inteligentes e, principalmente, da indignação de muitos brancos em ver um negro na presidência do país mais rico do mundo.
Riamos de Danilo Gentili tentando justificar sua piada racista, com mais preconceito e com um post racista, achando que estava sendo irônico no título, porque idiotas são os politicamente corretos.
Riamos da vergonha que os preconceituosos têm de se assumirem preconceituosos e do onipresente uso do truísmo “foi só uma brincadeira” como um saco de papel onde escondem a cara da execração de gente com senso crítico.
http://tuliovianna.wordpress.com/2009/07/27/o-riso-como-arma-dos-covardes/

Maçãs Podres disse...

Yuri,
“O humor deve servir para desestruturar discursos estabelecidos”, porém como vivemos o mito de uma democracia, o discurso “humorístico” tem reafirmado o moralismo da xenofobia, do machismo, do racismo e do elitismo cultural. Vc particularmente elege o programa da Amanda como exemplo da função do humor/arte desestruturante, posição pessoal sua, direito seu, contudo preferimos um Berthold Brecht. Vc acredita haver graça em estupros, assassinatos e abortos, mas a verdade é que isso não tem graça nenhuma, vítimas de quaisquer uma destas coisas não andam pelas ruas rindo. Não discordamos que exista em algumas obras de arte a funcionalidade descrita por vc, mas observando criticamente, não é o caso do programa da Amanda. Na sua pequena privacidade/prisão vc pode rir de vc mesmo, inclusive da sua própria orientação. Mas no publico vc sabe que sua liberdade não passa de uma gaiolinha minúscula, pois se vc estivesse na Alemanha nazista vc estaria com uma insígnia rosa amarrada no seu braço. Atualmente vc nem precisa de um recuo histórico tão distante, basta andar na Av. Paulista.
Meu caro, a questão é que privacidade e liberdade são coisas bem diferentes, vc pode rir de tudo isso dentro do seu quarto, pode até amar outro homem declarando isso na net, mas no mundo real, pessoas reais sofrem com as violências e os estereótipos construídos culturalmente e reforçados pelo “mau” humor.

Yuri disse...

Caras maçãs,
Não tenho prazer de ficar posando de moderninho ou coisa parecida. Me supreende ver vocês utilizando falácias ad hominem quando não descaracterizei a validade do discurso de vocês (se o tiver feito, por favor apontem meu erro).
Simplesmente advogo aqui o direito dos discursos de serem pronunciados e julgados criticamente de acordo com cada indivíduo que os recebe. Dessa forma acredito que possa ser criado um espaço dialético.
Não consigo enxergar como a "verdade" é que algo não tenha graça nenhuma (ou seja triste, trágica, etc.). Afirmar de forma tácita que um discurso é ou não é algo baseado em uma crítica ou opinião pessoal também invalida a discussão.
Não desejo me ocultar atrás do manto do humor, mas sim que os discursos preconceituosos (e quaiquer outros) sejam trazidos à tona e discutidos de forma clara ao invés de demonizados e invalidados. O S.C.U.M. Manifesto da Valerie Solanas é (para mim) de um mau gosto horrível e não traz nada interessante à discussão do feminismo. Mas eu não acho que deveriam censurar o livro porque ele advoga o "extermínio do sexo masculino".
Para terminar, gostaria de dizer que eu vivo no mundo real e também sofro com as violências e estereótipos reais como vocês. E gostaria de discutir as coisas de forma civilizada.

Maçãs Podres disse...

Caro Yuri

É exatamente isso, ou você não sabe que quem não sai nas ruas batendo em “minorias” socialmente vulneráveis, comumente usa “piadas” como arma de agressão discriminatória? Gostaríamos que vc identificasse falácias em nossas palavras. Não é porque vc “não invalidou o nosso discurso” que não iremos identificar falhas no seu discurso, seria hipocrisia. Falamos em dialética, não? E assim sendo apenas reforçamos a tese da qual vc propôs uma antítese. Eis que para ver a “verdade” (em seu sentido de maior proximidade com a realidade) vc deve lembrar que quem sente fome não está rindo da dor no estômago, a miséria só é piada para afastar a realidade de quem já não mais tem forças para superá-la ou para justificar dominação de que se sente superior, se responsabilizando da situação ao banalizá-la. Assim, não inviabilizamos o debate, mas de forma simples e tácita reforçamos nossa opinião particular, pública e política. Se a nossa resposta não é “civilizada”, pois bem, preferimos que ela não seja, desde que seja feminista, antihomofóbico, anti-racista e anti-capitalista. Não esperava encontrar feministas dóceis como querem os machistas, espera?
Agora se pretende promover uma síntese, fique a vontade.

Yuri disse...

Maçãs,
Sei sim que discursos podem ser utilizados da forma como mais convier ao sujeito que os performativiza. Assim como o humor frequentemente é usado como arma de agressão discriminatória, o discurso de "direitos humanos" e "democracia" foi utilizado para justificar uma guerra desumana no Iraque. São discursos, não fatos. Só acho que os discursos não devem ser banidos ou rejeitados, e sim reempossados pelos indivíduos que fazem uso deles, da mesma forma que movimentos queer retomam os termos "bicha", "sapata", e "traveco", e movimentos Poliamoristas retomam o termo "Slut" (Vadia).
Discordo do ponto em que vocês falam que miséria só é piada para quem não está nela. No âmbito pessoal, já fui vítima de discriminação e ri disso, assim como tomei uma atitude a respeito. Há relatos de pessoas para quem o estupro foi uma experiência boa. Conheço alguém que ficou chateada quando se ofereceu a o estuprador no memoento do ato e ele a rejeitou. Samuel Beckett gargalhou da sua ausência de dentes até passar mal. Generalizar é perigoso.
Quanto a falácias, creio que pressupor qual é minha experiência pessoal e invalidar meu discurso através de uma pressuposição errônea (Argumento ad hominem, atacar a pessoa que está falando e não se referir ao discurso) elimina a possibilidade de discussão. Se eu não sei do que estou falando, e não conheço nada além do meu mundinho, porque meu discurso deveria ser ouvido?
Não esperava encontrar niguém dócil, só argumentos válidos com uma base por trás. Se vamos falar de perspectivas pessoais, não estamos discutindo a "realidade" e sim experiências. E ao generalizar experiências, tornamo-nos iguais aos homofóbicos e racistas que vêem um grupo que têm uma experiência diferente deles como "inimigos". Vocês citaram o Possenti que fala de costumes "pelo menos razoáveis, civilizados" e atacam a pessoa que está falando. Fica meio difícil não enxergar a contradição.

Maçãs Podres disse...

Yuri, para um oprimido, perigoso é ficar em cima do muro, porque na queda o lado que se cai é sempre o mais confortável/conservador, contudo é exatamente o lado onde se assentam os tijolos para manter o muro cada vez mais alto. Existe uma larga diferença entre generalizar e se posicionar. Não somos da ONU, UNICEF ou da Casa Branca para nos encaixarmos nesses exemplos, e é para este lado que o relativismo do seu discurso acaba se encaixando. Um exemplo disso é que ao falar do estupro, vc conscientemente exalta uma concessão e negligencia a violência. A partir do momento que ambas as partes “querem”, então não é estupro. Falando em dialética, não centralize suas palavras em particularidades esquecendo o todo, as pessoas não sofrem isoladamente e nem a solução para o enfrentamento é individualista, existe uma estrutura que permite a Samuel Beckett rir e que impede a Dona Maria de denunciar o estupro de sua filha pelo padrasto. Experiências pessoais pressupõe uma realidade histórica, que muito bem se encaixam na metáfora dos dois lados do muro, toda neutralidade é um posicionamento conservador, ou se está do lado dos assassinos, estupradores, racistas, homofóbicos, burgueses e machistas ou do lado oposto. Não há meio termo.
Leia o texto: http://www.unodc.org/documents/southerncone//Topics_drugs/Publicacoes/05_vulnerab_imp.pdf

Yuri, já está bem óbvio que somos solidari@s a todo sofrimento, inclusive o seu.
Mas vamos deixar de semânticas e saindo do pessoal, da terapia e do cavalheirismo. Uma pergunta:
FINALMENTE, VC CONSIDERA QUE o programa da amanda REPRESENTA A VOZ E O PENSAMENTO DAS MULHERES QUE DESEJAM SE LIBERTAR DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA?
Cite os trechos que demonstram alguma proposta de superação dessa realidade.
Desse modo teremos uma base teórica para voltar Ao debate proposto por vc.

Yuri disse...

Eu poderia falar sobre como não existe mais muro unificado, e sim muros cotidianos dentro de cada um de nós, e que dicotomias preto-e-branco são inócuas. Sobre como eu não acusei o discurso de vocês quando falei do Iraque e sim dei um exemplo que foi incompreendido e blábláblá. Também poderia responder como é empiricamente impossível representar a voz e o pensamento de TODAS as mulheres que sofrem de violência doméstica. Mas isso fica para outro dia e não acho que seja algo a ser discutido nesse post agora.
Respondendo à pergunta:
Sim, pois o caso de Amanda funciona através da hipérbole para criar uma não-identificação. A apresentação do programa, ao fazer referência à publicidade machista da década de 50 que dizia que a mulher deve ser submissa ao homem, dá a tônica do programa, que tem um formato "moderninho", na linha da ravista "Capricho". Ao deslocar um discurso da década de 50 para a boca de uma jovem do século XXI que se propõe a "ajudar" outras pessoas, torna-se evidente o absurdo. Ela não está ajudando ninguém, mas acredita que está, assim como as revistas que falam da "liberdade sem perder a feminilidade" ditam um padrão enquanto fingem que o discurso da submissão foi superado. O personagem é bizarro, excessivo, incapaz de gerar uma identificação plena com o público ou com a realidade que ele quer retratar, assim como Baal, de Bertolt Brecht (de forma menos desenvolvida, obviamente). O que existe constantemente é a contradição do discurso da Amanda (que diz que está tudo bem e que ela está feliz) com o que enxergamos em seu corpo (no segundo episódio ela aparece com um olho roxo, no terceiro com um braço quebrado, etc.). Talvez o que o programa possa propor como superação dessa realidade é um primeiro passo, a revelação que o discurso de "liberdade" é muitas vezes uma falácia para encobrir uma submissão baseada no medo.
O programa não expõe isso de forma muito didática, mas assim como ninguém imitaria Baal, niguém imitaria a Amanda conscientemente.

Maçãs Podres disse...

Yuri,
1-Sobre “ninguém irá conscientemente imitar a perosnagem da Amanda”
É importante lembrar que em nenhum momento do texto colocamos que as mulheres iriam imitar a personagem após assistir os vídeos, o que questionamos é a banalização da violência doméstica, a estigmatização dos comportamentos femininos frente a violência, o oportunismo anti-ético de ridicularizar a vítima (e não o agressor) e o uso da imagem feminina para legitimar o discurso machista.

2-Sobre “o primeiro passo para superar esta realidade”
Vc diz “TALVEZ”, que o programa propõe como “primeiro passo para a superação da realidade” o estabelecimento de uma relação falaciosa entre “liberdade” e submissão/medo. Logo, o "talvez", implica em não existir certeza sobre uma proposta de superação presente no programa. E assim, por uma questão lógica, é possível afirmar outras coisas que indiquem o contrário.
Não podemos descontextualizá-lo da realidade histórica. Estes programas são construídos dentro de um sistema econômico capitalista, onde o consumismo serve para “amenizar/alienar” das violências cotidianas (senão, não faria sentido remeter-se aos anos 50, os inserindo dentro de uma realidade atual). Esta é uma releitura dos programas humorísticos tradicionais (zorra total e praça é nossa), que colocam os mesmos padrões e valores morais e estéticos de mulheres, com o mesmo discurso "acéfalo" e usando os mesmos estereótipos (ex: a primeira piada da Amanda é sobre a "SUA EMPREGADA" doméstica).
Toda a abordagem e apresentação hiperbólica da Amanda são classistas, logo lotada de ideologia machista que coisifica a atriz/comediante (tanto que ela só foi se “transmutando e se enquadrando fisicamente” ao tema violência doméstica, a medida que o programa foi denunciado por feministas e a maioria dos comentários do youtube são direcionados para o físico da jovem). Assim, a “hipérbole” (elemento artístico que usa o exagero com a finalidade enfática de dizer algo) da Amanda é uma reprodução dos estereótipos machistas lançados sobre as mulheres, é a banalização da realidade da violência masculina e não uma falsificação do imaginário. A Amanda não cria imitações (como vc também disse) e nem rejeição sobre os padrões da realidade exposta, lógico, ela é a imitação de um fato real.

3-Sobre um humor “didático”
Não entraremos no mérito da questão, pois também poderíamos ter críticas, mas é possível identificar “humor didático” que estabeleçam as contradições da realidade atingindo diretamente os valores opressores (como bem fazia Molière). Ex.: machismo (exaltação do homem) e homofobia:
http://www.youtube.com/watch?v=1II-IzM_Yro

4- Sobre os quatro primeiros parágrafos, vc somente reafirma o que está contido em nosso texto.

Yuri disse...

1 - A exposição da banalização da violência pode servir para gerar um desentranhamento dos comportamentos frequentemente aceitos em nossa sociedade. A caricatura não é uma reprodução, mas um exagero com o objetivo de revelar o que está por trás de discursos aparentemente aceitáveis que tem uma conotação machista implícita. Vemos frequentemente o discurso de que a mulher pode se tornar mais livre sendo mais "feminina". O que a Amanda faz é exagerar esses estereótipos ao concentrá-los e revelar a conotação machista de submissão a eles através da exposição de suas consequências últimas, obviamente inaceitáveis ao entrar em conflito com princípios humanos basilares. Com o viés do absurdo, essa exposição chega ao extremo de uma perspectiva para causar incômodo e, consequentemente, reflexão: Será que o que os programas de "ajuda" a mulheres estão dizendo não é a mesma coisa que Amanda diz, mas de forma mascarada?

2 - Eu digo "talvez" em meu discurso não para deixar de tomar posição, mas porque, politicamente, eu prefiro criar espaços a muros. Eu gosto de deixar claro a possibilidade de outras interpretações, pois nem todos têm clareza do que é dialética. Creio que não seja necessário tomar essa posição aqui.
Justamente a contextualização histórica da Amanda é o que o torna absurdo. Ela exagera essa ditadura do consumo e da aparência ao dizer que está tudo bem quando obviamente não está. Na década de 50 esse discurso passaria despercebido pela maioria, mas hoje ele entra em conflito com a suposta "emancipação" feminina
alardeada pelos quatro cantos ( este discurso de emancipação é inclusive reproduzido pela atriz fora do personagem). Ele não ameniza ou aliena às violências cotidianas, mas demonstra como essa violência cotidiana é amenizada por esse discurso de liberação. O discurso de Amanda é acéfalo demais, coisificado demais para poder se articular com qualquer discurso contemporâneo do espectador que leve a sério igualdade de direitos. Por exemplo, ao reafirmar o que ela chama do "mito do orgasmo feminino", ela não imita ou repete nenhum fato real contemporâneo, mas coisifica o discurso do "prazer de dar prazer ao homem" a um extremo inaceitável. Isso é um reversão irônica que funciona através da hipérbole. É algo simplesmente muito absurdo para ser levado a sério. É uma caricatura grotesca, não um manifesto que advoga em favor da submissão feminina (se bem que esse último também seria, por definição, uma caricatura grotesca).
A Amanda imita os fatos reais na apresentação classista, é bem verdade, mas não no discurso absurdo ("palmada do marido é só mais um dolorido, lado duro com osso acaba em crime doloso"). Esse excesso denota a contradição. Nenhum discurso ou fato real apresenta a violência doméstica nesse extremo da "aceitação". É sempre algo velado, como "em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher".
3 - Sim, é possível estabelecer as contradições logo de cara. Mas também é possível estabelecer as contradições através do exagero absurdo de um mesmo discurso como em http://www.cleycianne.com/ , ou nos filmes de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. A estupidez proposital é tão alarmante que gera uma reação no leitor.
Outro exemplo de um discurso que gera esse distanciamento devido ao seu excesso é, como já citei, Baal de Brecht.
4- Eu não vou entrar no mérito dos quatro primeiros parágrafos. Prefiro focar na discussão do programa da Amanda em si por ora. Desejo retomar isso, mas depois.

Maçãs Podres disse...

Yuri, não vamos dar ibope e nem concentrar energias neste programa, este dialogo está ficando muito hiperbólico. O texto está aí, seus comentários estão também, qualquer pessoa poderá ler ambos e ver qual é mais "absurdo". Temos outros estudos. Fique a vontade para ler o blog.


O homem é o único animal que ri e é rindo que ele mostra o animal que realmente é. (Millôr Fernandes)

Yuri disse...

De fato a discussão já está muito longa.
Enfim, retornando ao cavalheirismo, foi um prazer dialogar com vocês.
Eu apareço mais vezes por aqui.
Abraço a tod@s.