29 de out de 2011

Graffiti Interativo Feminista sobre Aborto e Direitos Reprodutivos das Mulheres


Dia 23 de outubro de 2011. Dia de fazer o graffiti interativo feminista. Chegamos na Rua da Várzea um pouco depois das 10h, mas a galera já estava por lá trabalhando. O pessoal do GRIF Maçãs Podres (Ana Clara Marques, Fernanda Sunega e Patrick Monteiro) já tinha pintado o poema e estava colando na parede o stêncil da palavra MATERNIDADE. 
Foto: Thamara Lage
No muro, antes de nós alguém graffitou um protesto: “Vendo voto à vista”. Depois de muita discussão, as Maçãs Podres decidiram não apagar o graffiti, que foi incorporado ao mural. Essa intervenção compôs muito bem com o nosso tema, afinal os direitos reprodutivos das mulheres estão sempre sendo rifados ou vendidos no “mercado parlamentar”.
Elisa Gargiulo já estava a postos com sua câmara, filmando tudo. Valéria chegou em seguida no seu besouro branco vindo de Atibaia, trazendo sua energia e sorriso largo para nos fortalecer. Ela corria de um lado ao outro, como uma maratonista, agregando as pessoas, panfletando e pacientemente explicando a causa a cada pessoa que se dispunha a tentar saber um pouco mais do que acontecia.
Denise Bertolini, Thamara Lage, Thamires Cabral, Edu Meinberg e Douglas também já tinham aparecido para dar uma força. Marina Vargas chegou logo em seguida. Ela, a Thamara e a Thamires ficaram o dia inteirinho com a gente e deram uma força imprescindível.
Enquanto uma parte do pessoal trabalhava no mural, outra parte entregava folheto e conversava com as pessoas que passavam pelo local.
Perto do meio-dia, chegaram Cristiane Gonçalves, Luiza e Janaína Leslão. Luiza inaugurou a “oficina” de graffiti. Patrick ensinou-a como pilotar uma lata de spray e ela mandou bem no stêncil de Católicas.
Marcinho, morador do local, trouxe água gelada e uma lona de presente e contou histórias de uma violência sofrida. Ao meio fio, junto ao caminhão do seu Heleno, que vendia bebidas e salgadinhos, alguns moradores da região observavam e davam palpites, como seu João, carreteiro, seu Marins e outros.
Um senhor carregando um carrinho de feira com papel para reciclar e sua filha passam pelo local, ela vê a Fernanda recortando as imagens das pessoas e pára na tenda pra desenhar junto.
Foto: Valéria Melki Busin
Sol forte, todo mundo cansando de torrar, mas firme na lida. Hora do almoço, revezamento pra comer. Chega um casal muito simpático, Denise e Alexandre. Ela, enfermeira, conhece bem a realidade das mulheres que abortam e o sofrimento que passam. Soube do evento pelo Facebook , como a Marina, e foi lá para apoiar. Gravou depoimento, graffitou e trocou idéia com todo mundo. Alexandre também graffitou.
Uma moradora de rua vem caminhando devagar e admira o trabalho. Está comendo um pãozinho que o seu Heleno deu para ela. Ana Clara conversa com ela e ensina a pintar. Ela pinta um pouco também, parece encantada com o que vê. Emoção.
Um senhor chega, recebe o folheto e vai embora lendo. Pára e volta para conversar, diz que aborto é pecado. Conversamos com ele sobre as mulheres que morrem, sobre a injustiça de pagarem sozinhas com seu corpo, sua vida, sua saúde. Ele se sensibiliza, concorda, acrescenta argumentos do nosso lado. Sai transformado, apoiando.
Um rapaz passa e vê um folheto no chão. Agacha para apanhá-lo. Olha em volta e vê outro, pega-o e entrega ao colega que caminhava com ele. Concordando com o texto, saem conversando. Outra turma passa e pergunta do que se trata. “Estamos fazendo campanha pela legalização do aborto” , dizemos. “Sou totalmente a favor”, diz um rapaz. E continua: “O que eu posso dizer¿ O corpo não é meu, eu não tenho de dizer nada. A mulher tem de decidir, só ela”. É isso aí, cara!.
Chega um grupo “multinacional”. Vieram também pela divulgação no Facebook. Ele, assessor parlamentar; ela, portuguesa, veio passar um ano no Brasil trabalhando como voluntária na CONAM. Ela graffita, grava depoimento. Em seguida, chegam outras pessoas que estavam com eles: uma italiana, também voluntária, e um rapaz mineiro. Ficam mais um pouco, conversam e vão embora.
Foto: Valéria Melki Busin
Chega também o Marcos, gente boa, soube do evento pelo Transparência Hacker, que divulgou também. Marcos nos deu o maior apoio. Participou da graffitagem e ficou bastante com a gente. Ele vai fazer uma HQ sobre o aborto utilizando o mural. Bacana demais sua idéia!
Um camelô que mora na região diz que as mulheres vão pagar pelo aborto, Deus vai puni-las. Argumentamos que Deus não vai puni-las, porque é bom e justo. Ele não faria isso com as mulheres, porque se elas abortaram, foi por necessidade. E não fizeram a gestação sozinhas. Ele concorda e diz que Deus vai punir também os homens. Discordamos de novo. Deus é bom, não vai punir quem não merece. Ele se conforma, não muito convencido, mas desiste de falar de punição. Senta no banco do seu Heleno e assiste, impressionado com a arte surgindo de onde antes só se via feiúra cinza.
O muro está ficando lindo, já dá para ver que vai ser algo incrível. Chega um grupo de jovens fãs do Dominatrix, banda da qual a Elisa Gargiulo é vocalista.
Poema Concretismo Feminista
São muito jovens e participam muito ativamente, todas, fazendo sua parte no graffiti, algumas gravam depoimento também.
Todas essas participações na graffitagem são feitas sempre com alguém das Maçãs Podres ensinando, isso é muito legal – luxo fazer oficina com quem mais entende do riscado.
Seu João, que está no “bar” do seu Heleno, conversa com a gente e conta que sua mãe queria ter feito aborto e não pôde, teve gêmeos. “Porque não tiveram amor, hoje não gostam da minha mãe e nem de nós; nossa família também não gosta deles. Por isso, eu sou a favor do aborto”. Ele concorda em gravar seu depoimento. Arrepiante!
A confecção do mural chega ao fim. Ficou lindo, maravilhoso, forte, imperativo. Queremos tirar fotos do mural inteiro, mas o caminhão do seu Heleno está na frente, impedindo. Vamos conversar com ele, que se recusa a tirar o caminhão alegando muito trabalho para desmontar e montar tudo e diz que vai ter prejuízo. Argumentamos com calma, pedindo sua compreensão. Momentos de tensão. Fica um mal estar e quase desistimos. Voltamos a conversar, insistindo paciente e educadamente. Ele cede. Tira o caminhão e tiramos fotos do mural inteiro. E tiramos fotos nossa à frente do mural. Neste momento, todo mundo que freqüenta o “bar móvel” do seu Heleno quer tirar fotos também – seu Marins, seu João e outros – e pessoas que passavam na rua.
Alguns minutos depois, está tudo pronto. Seu Heleno volta com o caminhão e é recebido aos gritos: “Seu Heleno, seu Heleno, seu Heleno!” Agradecimento especial a ele é escrito no muro. Ele se comove, fica mais doce do que jamais poderíamos suspeitar de que fosse capaz. Não aceita uma compensação em dinheiro pelo prejuízo, nos oferece uma coca-cola (não aceita o pagamento). Tira fotos, feliz, com a gente e com seus parceiros de Barra Funda tendo o graffiti como fundo. “Eu moro aqui nesse caminhão e vou cuidar desse graffiti. Pode voltar pra ver daqui um mês, dois, três: vai estar assim, direitinho. Ninguém vai mexer nele, não!” Ele está feliz.
E todxs nós também!
para ver o resultado final do muro E AS FOTOS DAS DEMAIS PARTICIPANTES clique AQUI

2 comentários:

gabriel disse...

"Em um mundo sem cor,
surge uma centelha de luz,
amarelada, como fogo ígneo"

A cada instante fugaz, a chama arde, latente, querendo sair, querendo, delicadamente, gritar,
querendo liberdade.

Como gostaria de ser-lhes útil.
Vendido ao materialismo "entretedor"...

Humildemente,
G.

gabriel disse...

Esse assunto me fez pensar em algo...
Após deliciosos debates/diálogos sobre deus, crença, alguns como eu, chegam a conclusão de que a crença em deus é irracional e facultativa; ou seja, não segue padrões de logica, racionalismo, para apreender/absorver o conhecimento, a experiência, neste caso, não concebe Deus a partir da lógica; é facultativa no sentido de que crer então, após esse raciocínio é opcional. Portanto, Deus é abstrato, crer nele ou não, é opção de cada um.
Não é preciso salientar quantas guerras e vitimas surgiram na história. Atualmente, o mundo islâmico, é um exemplo de como a questão exposta acima, não é aceita, tolerada. Não estou generalizando, apenas salientando o quanto que tem ocorrido devido a intolerância sobre crença, opções, intervenção do Estado/Clero, na vida das pessoas.
Os “ocidentais”, etnocêntricos, afirmam que o mundo oriental/islâmico, não evoluiu por causa do fundamentalismo/terrorismo islâmico, religioso. Não entrando, nesse momento, em questões políticas, atemo-nos apenas ao seguinte: se o mundo Islâmico está errado, ao intervir com suas leis religiosas – a sharia – na vida das pessoas, ao invés de permiti-las a democracia e o direito de tomar suas próprias decisões, no tocante a crenças/hábitos; por que, nas democracias ocidentais, tão “exemplares, modelos para os continentes do ‘velho mundo’”, o aborto ainda é um tabu? Por que a intervenção no direito do indivíduo-mulher, de ter “kratias” – poder – sobre seu próprio corpo é negado? Vejo apenas uma resposta, não estamos numa democracia verdadeira, mas numa sociedade racista/machista(homens brancos/burgueses) que se assemelha nas mesmas condições políticas da falsa modelo de democracia ateniense, onde nem um terço da população era realmente considerada “cidadã” e portanto, com direitos políticos.