20 de jun de 2014

#OcupeEstelita



Primeiro queria falar da presunção de escrever sobre algo em andamento. Quem sou? Não é relevante. Não temos rosto, isso basta. Como tal, fluídos como a diferença, somos várixs. Por isso, não tenho pretensão de mostrar nada alem de uma opinião. De resto, pode ser que seja uma reflexão útil, ou que seja, então, base para negação – que seja!
Queria falar da importância de sairmos da representatividade; da delegação; da necessidade de liderança. Em todos lugares, campos e esferas.
O modelo do “estado de direito” no qual se construiu uma “democracia representativa viável e racional” à esteira da economia d’o capital, parece fluir para todos os lados (política institucional, militância, academia etc.) contaminando tudo e inibindo outros ideais e valores. Por isso, acho que precisamos parar um pouco e refletir sobre o curso das águas: será que não estamos chegando ao fim do rio?
A ocupação do cais José Estelita, o que tem a ver com isso tudo? É, de fato, prática (em relação à “teoria e prática”) para alguns ou apenas um “imaginário” em síntese que pode ecoar para um futuro como um sonho latente?
O som de Keny Arkana, em “V de verdades” diz, “[...] um momento contém a eternidade...” O Estelita é um destes momentos que contém a eternidade?
Acredito que sim... mas não somente.
Foto: Ytallo Barreto

1 – Do imaginário às balas, “das armas da crítica à crítica das armas...” (Marx).

            Estive alguns dias no Estelita. O dia mais importante, para mim, ocorreu quase uma semana antes da reintegração de posse. No dia, na companhia de uma companheira que compartilha das mesmas angústias, temores e anseios sociais, assistimos três pessoas apresentarem situações, idéias, pensamentos. Dxs três, um (a) me chamou mais atenção, era uma mulher de classe econômica marginal; de origem étnica mista (não branca – colonizador; não negra, ou índia – colonizados), mas não por isso menos colonizada; e designada humanamente como mulher.

            As palavras dela me chamaram mais a atenção por quê? Tínhamos dois/duas acadêmicxs também e a mulher não estava nesse padrão? Oras, dois/duas intelectuais, sendo um, um professor – um intelectual! 

            Primeiro, ela me lembrou de duas pessoas; Marx e Spivak. Marx porque trouxe a crítica das armas ao invés das armas da crítica. Como assim? Bem, o professor trouxe a filosofia e o saber acadêmicos. Mostrou para uma platéia mista, mas em sua maioria composta por jovens, o poder do imaginário; a diferença dos conceitos de signo, signo e simbólico etc. Nos mostrou o saber acadêmico, na “ágora” do Estelita, aproximando uma luz sobre o coração dos ocupantes. Mostrando-lhes que a história continua, está sendo construída e tudo aquilo ali era, se entendi algo, a criação de uma representação que iria além da gente (ocupantes e militantes).
Ela, por sua vez, falou dos tiros, do enfrentamento, de um conflito de resistência contra as forças do Estado; do sangue nas paredes de sua favela; da violência; da força para dizer, diante da miséria, que enfrentaria a bala de novo, e que, se de novo, fosso necessário, outro representante da força do Estado, teria resposta à altura das balas que direcionava contra sua favela. Eis a crítica das armas, há tempos esquecida.
            Lembrou-me Spivak, também, pelo seguinte: o Estelita criou a possibilidade de que o espaço para que o subalterno falasse, existisse. E assim se fez. A mediação de um saber acadêmico em nada acrescentaria à experiência de vida dessa mulher que vos falo. Tal experiência nos ensina muito, mas muito mais que muito saber que tem por aí, de Marx à Foucault.
            Como Raul Seixas, no “auge da minha agonia...” participei do debate. Mas sem que a necessidade da medição de pau estivesse presente; sem a violência simbólica de discursos (testosterona) que precisam ser melhores, vencerem debates; mas sim, tentando falar das possibilidades que o Estelita trazia e da necessidade de pensar em como aquele espaço poderia ser heterogêneo; como o sangue e as armas deveriam ser combatidos e como o discurso mais real – o da mulher subalterna – representava um mundo real que grita, tal como ela gritou, para outro mundo possível, outro mundo ansiado – tal como eu e a companheira que comigo estava também ansiávamos – e, talvez um mundo diferente do que algumas pessoas ali estavam pensando...

2 - Classe média e direitos urbanos – moradias populares (mas não somente) – higienização.

  
          Conversei com algumas pessoas do Estelita, ocupantes. Também conversei com amigos e amigas companheirxs de estrada. Gente de dentro e de fora. Gente de ONGs, Universidades e de outros círculos. Posso dizer que tem gente criticando o movimento como um movimento de “classe média”. Outros defendem a ocupação por ser, independente se seria de classe média ou não, uma manifestação de pessoas contra os interesses de construtoras (iniciativa privada) e de políticos (Estado).
            Pergunto-me sobre o princípio da diferença, da identidade. Será que o movimento precisaria ser homogêneo para contemplar a “vontade geral”? Mas a vontade geral não pressupõe, justamente, a sua inviabilidade numa sociedade tão multifacetada como a nossa? Assim sendo, poderíamos pensar, então, no Estelita como necessariamente “de classe média” e, por isso, defendê-lo? Acredito que não.
            Como assim? A marca da nossa sociedade é a diferença; é a constituição de múltiplas identidades. Desse modo, penso que a heterogeneidade se apresenta como um fato inegável e, curiosamente, não negativo. Pelo contrário, acho que a democracia abarca isso, ou pelo menos deveria, não? Em outras palavras: o Estelita não deve ser encarado como monocromático e, tampouco, deve ser “apenas da classe média”. Se tem classe média, “nossa, que bom!”, mas não pode ser resumir aos interesses da classe média. Tem que ser um edifício com vários cômodos e todos, tem de estar interligados de algum modo.
            Moradias populares devem fazer parte da pauta de reivindicação sim. Porém, não apenas “moradias populares” e basta. A mulher que representava um movimento (que ainda não revelei) era do “Dhuzati” e representava o Conjunto Habitacional do Cordeiro. Ela contou sobre a experiência de que o seu conjunto habitacional (ou o que ela mora) é um aglomerado de moradias de várias famílias. Tais famílias, por sua vez, são, muitas vezes, de comunidades diferentes e, por isso, além do abandono do Estado, há a potencia de rivalidades que surgem nestes locais (distantes dos condomínios e espaços sociais da classe média) por, justamente, se constituírem enquanto locais em que o “Estado” abandona.
            A higienização, argumento trazido por outrx companheirx que falou e que milita exemplarmente, se constitui, paradoxalmente (ou ardilosamente), justamente, na criação das moradias. Oras! O que deveria ser solução: o que a sociedade é convidada a dizer, “nossa! O governo vai construir mais de mil moradias populares até o fim do mandato vigente” é, por outro lado, não a solução, mas a limpeza étnica; o afastamento de uma população abandonada ao “Estado de Natureza” para viver tal estado em outro lugar, se possível distante das ruas e do espaço cultural do Recife Antigo; das áreas de lazer disponíveis as classes mais abastadas; aos/ as cidadxs de direito.
            Nesse sentido, as reivindicações da classe média precisam ser reavaliadas; assim como as reivindicações da classe pobre, precisam ser problematizadas com maior sobriedade. Mas como fazer isso se o governo local já vendeu em leilão denunciado como deslegitimo a propriedade da terra “comunal”, para a iniciativa privada. Ainda por cima, dentro do modelo representativo de democracia em que aceitamos viver? Bem, isto me parece bem sintomático.

3 – Democracia representativa-patológica e as Jornadas de Junho.

           
Concordo com um certo professor de política que afirmou que o mês de junho de 2013 trouxe outro panorama para o Brasil. Concordo. Penso, por outro lado, mas nem por isso contrariamente, que as manifestações de junho representam, básica e obviamente, a insatisfação da sociedade para com o Estado. Esta insatisfação pode ser com a gestão atual ou com a sucessão de gestões do Estado. Porém, penso que há mais nisso do que “insatisfação”.
            Acredito no que chamo de “cabeça a cabeça”, trocar idéia entre pessoas, sem muros, barreiras. Por isso, acho que nosso panorama atual é positivo nesse sentido, pois permite essa abertura. Contudo, ainda existe um conflito entre o “passado e o presente”, o “presente e o futuro” e, mais factível – entre gerações. Isso não é de todo mal, é positivo. Pois vejo que há pessoas novas, grande parcela de jovens; certa parcela de gerações mais velhas; que podem pensar o novo, pessoas que podem fazer diferente.
            De boa, foda-se o pessimismo niilista. Não to preocupado em dialogo com posições que mesmo não posicionadas, permitem com que uma estrutura já estruturada continue estruturante; em poucas palavras, não to afim de convencer “realistas” de que podemos mudar. Eterno retorno é uma logicização não condizente com uma realidade que temos a nossa frente, palco para a contingência, estrada para a ação.
            O que me parece que temos diante de nós, pós 2013, é a possibilidade de transformação de nosso cenário político. Este dado me parece tão seguramente correto que posso indicar, em contra-partida, as tentativas de quem está no poder de, justamente, se apropriar desse “discurso” de “participação”, “reforma política” etc., em novas propagandas partidárias que soam como música para ouvidos de uma nova geração de militantes e ativistas (aqui em Recife, até onde me lembro os partidos de esquerda estão nessa; enquanto a direita está tentando ainda falar de moral da família e mercado, como Thatcher na década de 1970). 

Eae, acreditamos neles mais uma vez?

4 – Democracia participativa e pluralidades – ocupeestelita.

            Este texto já ta ficando muito longo. Acabemos.

            Hoje (ontem, já que entrei na madrugada) tive uma ótima conversa com companheirxs (se tiverem paciência de ler, elxs saberão quem são e quem influenciou isso ou aquilo nesta parte). Falou-se da antiga atuação LGBT, quer dizer, das formas de militância verticais e do modelo que já não funciona bem, pois pelo menos aqui em Recife, se falou de certa falta de mobilização destes grupos.
            Eu questionei a forma de atuação geral da democracia que, como já se tem chamado (acho que Boa Ventura) de modelo de democracia patológica. Esta forma de democracia, a representativa, como falei no começo deste texto, e também quando participei do diálogo no Estelita, parece reverberar nas formas de organização de alguns movimentos sociais (maioria). Oras, nem de forma geral a democracia tem dado conta, imagine em questões mais pontuais?
            Em um texto zapatista, o qual estudei com um grupo fodástico – o Curupiras (grupo de estudos sobre póscolonialidades, de forma geral, daqui do Recife) – traz a experiência zapatista de organização política – democrática -, horizontal, direta, participativa, em toda a sua pluralidade (a atuação das mulheres, por exemplo em meio a militância) e a crítica ao posicionamento dos (nós) acadêmicos que teorizam e teorizam... e teorizam. Ou seja, que não “agem”, pois teoria para teóricos não deixa de ser teoria; a prática não é isenta de teoria, mas é feita pelo conjunto de ação e prática; a teoria, por outro lado, pode ser exercida na prática ao invés de ser um princípio de diferenciação entre “teóricos” (pensadorxs e criadorxs de conceitos) e “os outros” (penso aqui na analise de Spivak sobre o posicionamento de intelectuais, como Foucault e Deleuzze, e da analise que eles fazem sobre a mesma questão em relação a prática de trabalhadores e dos intelectuais).
            Quero dizer, com tudo isso, que a academia tem que sair dos muros de proteção e culto ao saber, tem que está nas ruas, aprendendo com outros saberes. Quero dizer também, que a democracia não deve ser confinada a analises sociológicas academicistas, portanto. Ela tem de ser estudada na prática, em seu exercício e no diálogo. Rosa Luxemburgo já dizia, por exemplo, que “... o povo só vai aprender a usar o “poder” (se não me engano) na medida em que USA O PODER...”.
            Os movimentos, a exemplo do LGBT, representam aqui, um componente de uma pluralidade de grupos, de interesses, de sujeitos. Consequentemente, a democracia deve abarcar os interesses dos grupos dentro de um conjunto de referencias gerais que norteiem os valores democráticos. 

            O que isso tem a ver com o ocupeestelita?

            O Estelita é um espaço (era?) em que o Estado pós-junho de 2013, havia decidido passar para a iniciativa privada, supostamente munidos pelo “direito” que lhe foi concedido nas urnas das últimas eleições. Supostamente? Não, não! Eles tinham esse direito, se avacalharem foi porque a ganância foi além de sua ética já tão corrupta, porque, na verdade, eles são representantes escolhidos constitucionalmente. Mas se podiam, porque a ocupação?
            Como disse, tenho uma opinião sobre o assunto, não a verdade e posso, por isso, estar errado. Mas confesso que não to muito preocupado não. Pra mim, o que vejo é: a ocupação não está longe do que vivemos ano passado, caminhando pelas ruas do Brasil todo, reivindicando reformas políticas. É uma continuação. Se ligo um fato ao outro, é porque vejo parte das pessoas, ou suponho, que estavam nas ruas ano passado, se reunindo para resistir as armas do Estado na desapropriação este ano no Estelita.
            A pluralidade que me refiro, que parece está saindo aqui do raciocínio, na verdade, é manifestada no conjunto de interesses heterogêneos que estão em cada sujeito que estava no Estelita. Além disso, o conjunto que se formou no Estelita, tem o potencial de, no mínimo, simbolizar a decadência da democracia representativa partidária. Isto é, me parece que o Estelita é parte de um momento histórico em que pessoas estão se levantando e contestando um modelo de organização político-econômica que há décadas vem se demonstrando como incapaz de dar conta desta organização.


            P.S.: Não estou querendo representar ninguém, nem ser representante de outras pessoas a margem do sistema. O que quero aqui é propagar idéias a partir dos diálogos reais ocorridos nas ultimas semanas na cidade de Recife, no Estado de Pernambuco, em junho de 2014 – um ano depois dos movimentos que abalaram o Brasil e o mundo.
Relato: Gabriel Brito.

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