30 de jul de 2009

CORDIALIDADE MASCULINA: AS GRADES DE FLORES

Eis que vivemos um retrocesso na luta pela emancipação. Simone de Beauvoir aponta que uma das barreiras na luta pela emancipação humana foi que parte das reivindicações do movimento feminista se baseou em queixas, o que levou a perda do foco da luta. Reivindicações baseadas em lamentações tornam-se um fenômeno secundário, de pouca importância, que muitas vezes até representa alguma atitude por parte da sociedade, mais de fato não a modifica. È fácil algumas feministas se ludibriarem com alguns “avanços” no decorrer da história. Principalmente porque mulheres, inclusive algumas feministas, muito se orgulham do “novo” homem (o homem cordial), simplesmente porque ainda não se libertaram do sonho de encontrar o príncipe encantado.
A história nos mostra que no período medieval a função dos homens nobres era o combate e as guerras. Assim nasce a Cavalaria. Sem nenhum intuito de proteção dos mais fracos e sem nenhuma piedade para com os pobres. As mulheres eram tratadas de forma brutal, eram servas de seus maridos e nada tinha em troca da submissão senão violência.
O objetivo da cavalaria era a defesa dos feudos, a conquista das riquezas e a defesa dos valores da igreja.
São nas cruzadas, viagens de longuíssima duração, rumo ao oriente que os cavaleiros entram em contato com outra cultura, interiorizando valores e sentimentos destas civilizações que não se encontravam presas ao espaço privado do feudo. Graças às primeiras vitórias, os cavaleiros adquiriram prestigio e o reconhecimento da igreja católica. Mas como a Terra Santa não foi conquistada e com o declínio do feudalismo o interesse dos homens se voltasse para uma nova riqueza capaz de garantir a passagem das heranças e da instituição patriarcal conhecida como família nuclear: as mulheres.
A brutalidade do cavaleiro agora se transforma em cortesia. Uma mudança “drástica”. Se antes os homens tratavam as mulheres de forma brutal, prendiam o corpo das mulheres com cadeado e ferro, chamado cinto de castidade, agora no cavalheirismo moderno o controle do corpo vem através da cortesia. A prisão deixa de ser de aço e as grades passam a serem feitas de flores.
Com a cortesia tudo muda, os valores morais são outros, a literatura e as artes em geral não serão mais as mesmas e o comportamento de homens e mulheres tem agora outra lógica. Agora uma mulher não é mais um “animal” em relação ao tratamento. A submissão feminina exige a boa educação e o bom trato!
O cristianismo contribuiu muito para a opressão feminina. Num período de alguns “avanços” para a mulher, mesmo sendo altamente contraditórios (como por exemplo; o direito romano). A influência do cristianismo trouxe um retrocesso. Podemos observar na história inicial do cristianismo uma concessão que é chamada por Simone de Beauvoir de “sopro de caridade”, onde são as mulheres e os escravos que se apegam a nova lei (cristianismo).
A igreja colocava no mesmo patamar as mulheres e os leprosos. No texto bíblico diz: “Vinde a mim, todos os fracos e oprimidos, e eu vos aliviarei.” Este alívio tinha e tem seu preço. Somente mulheres casadas e mães eram “consideradas” pela igreja. Elas deveriam se submeter a igreja e ao marido, assim sendo, elas eram mulheres honradas e podiam participar de tarefas da igreja que até então não podiam. Essas tarefas eram absolutamente secundárias. Essas leis de “proteção” a mulher (o alivio citado na bíblia), só eram validas na qualidade de propriedade do homem e mãe de seus filhos. Era muito fácil se iludir com estes pequenos privilégios que a igreja impunha, pois mesmo com toda a opressão e a subordinação total da mulher ao homem era ainda um respiro em alto mar, devido a sua grande trajetória de opressão. Portanto, essa opressão vem camuflada com “honras”.
Nessas condições a mulher sempre é posta sob tutela, o divorcio é proibido, por ser considerada incapaz. Por outro lado ela podia assistir os combates, fornecendo comida aos guerreiros e animando-os com sua presença. A mulher era dependente absoluta do pai e do marido, esta é a tradição que se perpetua desde antes da Idade Média.
Qualquer semelhança com os dias de hoje não é mera coincidência. Grande parte das mulheres ainda está na platéia, isso quando ela não serve de distração para um intervalo. O cristianismo continua oprimindo as mulheres e impondo os valores sobre elas, e como no velho testamento só são consideradas “honradas” apenas as mães e as mulheres casadas. Portanto, não é difícil vermos algumas mulheres com atitudes mais “libertarias”, depois de um determinado tempo, encontrarem o seu príncipe encantado (o homem cordial), terem filhos, se converterem ao cristianismo, dando seu passo a “redenção”.
A cordialidade dos homens para com as mulheres traz um grande retrocesso para enxergar a opressão de gênero. Tudo passa a ser de forma sutil. Esse homem cortês, o “novo homem”, irá adotar um novo comportamento adquirido através do cristianismo, numa época em que a brutalidade das relações estava posta.
A boa educação, a cordialidade, o politicamente correto, está nesse “novo homem” que vê na mulher um “respeito”, não por ela ser uma igual e sim por simplesmente enxergar nela sua “fragilidade”. O ideal democrático ou o politicamente correto é fruto da pseudo igualdade social, que se inicia com a Revolução Burguesa, reconhecendo todos os seres humanos como iguais. A família reproduziu esta ideologia, apresentando a mulher, a criança e o jovem a mesma dignidade social dos adultos masculinos.
Hoje o homem sente esta resistência, essa independência da mulher e ele a “respeita” é claro, como esposa e mãe. É na experiência da vida conjugal que as mulheres vivenciam essa falsa dignidade social que se afirma em face do homem como uma liberdade.Essa cordialidade induz a uma pseudo igualdade de gênero. Através das diferenças, a mulher agora é sua igual, um exemplo é a “incapacidade” de certas mulheres em algumas profissões que se justificará na natureza, na biologia.
Quando a lógica machista tem para com as mulheres uma atitude de benevolência, essa lógica desenvolve o principio de igualdade abstrata e a desigualdade concreta fica guardada no fundo da gaveta. É claro que uma hora essa questão submerge entrando em conflito com a mulher, mas aí a situação se inverte. Se tematiza a desigualdade concreta e tira dela a autoridade para negar a igualdade abstrata. Um exemplo que no próprio Segundo Sexo a Simone de Beauvoir coloca brilhantemente que o homem declara não ver sua mulher diminuída pelo fato de não ter profissão (Igualdade Abstrata). A tarefa do lar é tão nobre quanto qualquer outra (Igualdade Abstrata). Entretanto, na primeira disputa, exclama: "Será totalmente incapaz de ganhar tua vida sem mim" (Desigualdade concreta).Um sacada genial da Simone de Beauvoir é que, não devemos ponderar com menos desconfiança os argumentos de um homem feminista, pois a preocupação polemica tira todo o valor. Se a questão feminina parece uma coisa absurda é porque a presunção masculina fez dela uma lista de queixas, e nas queixas as pessoas não raciocinam bem!O que mais foi investigado e usado pelas feministas foi a tal superioridade, a igualdade ou diferença entre os sexos e cada um destes argumentos sugere imediatamente seu contrário, e muitas vezes estes argumentos são falhos. Se quisermos fazer de fato uma discussão para quebrar essa lógica temos que sair da “guerrinha de sexos” que atrasa a analise real de gênero.
Não é com má-fé que homens e mulheres vão superar estas questões, apenas a busca e compreensão da realidade concreta poderá projetar o encontro da verdade. Um exemplo que Marx traz é que a própria Revolução Burguesa teve suas limitações enquanto classe.O que pode determinar a imparcialidade de algumas mulheres são os privilégios que ela vivencia nesta lógica. È a grade de flores! Se antes nossa prisão era cercada por farpas de ferro, e fios de alta tensão, depois do amor cortês tudo mudou para pior, pois agora nossa prisão é cercada por flores e é tão bonita e frágil que não ousamos abrir o portão para sair, com medo do cerco de flores se desfazer. Portanto, a cortesia, é a “essência” fundamental do Mito do Amor Romantico, e daí se entende o porquê deste mito estar a tantos séculos em nossas vidas, e muitas mulheres enxergarem uma pseudo liberdade e autenticidade de gênero nesta lógica. É essa cortesia, esta civilidade que muitas vezes é utilizada para concretizar e amenizar a verdadeira contradição do Mito do Amor Romantico.
É por essa lógica que todos se assustam quando há protestos contra a civilidade, o protecionismo, o politicamente correto e etc. Por mais que o homem esteja cheio de “boas intenções” ele ainda assim está impregnado de valores machistas e patriarcais, pois estamos sim num mundo machista com homens machistas e mulheres com uma mentalidade domesticada.

Texto: Ana Clara Marques e Élida R. Pereira
Colaboração: Patrick Monteiro

6 comentários:

Drica Leal disse...

Nem sei o que dizer...Fiquei aqui naquela reação estupefata de quem encontra nas palavras alheias algo que sempre sentiu e pensou, mas que nunca havia tomado corpo.

Realmente, tirar as análises das condições masculina e feminina do campo da "guerra dos sexos" promoveria um enorme avanço ao estudo dessas questões e às aplicações efetivas dos resuldados obtidos pelos mesmos.Uma análise desarmada é difícil, tanto da parte que despertou e sente-se ferida e magoada (mulheres)quanto da parte que está desesperada e é resitente a qualquer mudança que ameace seu status quo (homens).Mas creio que um dia conseguiremos, apesar de me exasperar ás vezes diante de tanta lentidão social...

Madressilva disse...

Vocês pensem bem e revejam os seus conceitos sobre cavalheirismo,porque em países do Oriente(Japão,China,Koréia,etc),quem tem que ser "cavalheiro" são as mulheres,e elas se encontram num estado de desigualdade pior que o nosso.Além do mais,estão partindo do princípio que todo homem "cavalheiro" nos trata como débeis mentais e reforçando indiretamente que as mulheres gostam é de cafagestes,de serem maltratadas,tratadas com brutalidade e até mesmo estrupradas,como vemos nas pornografias atuais.O que faz a mulher evoluir é ela mudar de mentalidade.É ela começar a produzir ciência,tecnologia,cultura ao invés de ficar vivendo de futilidades e fofocas do meio artístico;esta é causa a inaptidão feminina,quer vocês neguem que ela exista ou não.Não adianta ficarmos falando,acusarmos os "homens sensíveis"( que bem ou mal,estão se esforçando para mudarem em alguma coisa) se nós não procuramos nos desenvolvermos mentalmente como seres-humanos.O feminismo brasileiro está precisando é de mais mulheres cientistas,engenheiras,empresárias...não de mulheres que só ficam se perdendo em discursos intelectualóides e "humanistas" na web(só aqui é que ficamos nessa de integrar outras cuasa á nossa,como prova de humanismo).Está aí a causa de estarmos stagnadas.

maças.podres disse...

Olá Madressilva!
Infelizmente algumas mulheres estão envolvidas numa reação contra sua própria liberdade. Isso é um sinal de recuo!
A Brutalidade é uma das expressões da opressão, porém, a cordialidade é a expressão camuflada que dilubria as mentes de algumas mulheres. Assim como o neoliberalismo camufla a desigualdade social, a cordialidade camufla a desigualdade de gênero.
Muitas mulheres sentem-se atingidas com as ações contra o protecionismo, porque não estão dispostas a agir como sujeitos e encarar suas próprias contradições. Acostumadas a serem tuteladas, elas irão sempre se acomodar numa falsa proteção! É evidente que nem todo machista se utiliza da opressão, porém, isso não significa que não seja machista, seja homem ou mulher.
Cada vez mais temos mulheres cientistas, engenheiras ou empresarias que se contentam em chegar ao poder e se adaptar. Porém, não existe nenhum interesse na transformação dos papeis. O que podemos observar é que Muitas mulheres cientistas estão contribuindo para naturalizar a desigualdade de gênero (como foi exibido na Revista Veja em março de 2007). O feminismo, não só brasileiro, está precisando de mulheres dispostas a abrir mão de seus míseros privilégios e lutar por uma efetiva transformação dos papeis designados e o fim das estruturas de poder.

Abraços!
Maçãs Podres

Madressilva disse...

Mesmo assim,vcs deveriam mudar o termo ou analisá-lo sob outro ângulo.Digo isso por experiência própria:tenho visto machistas de plantão se agarrarem em qualquer coisinha para nos atacar,distorcendo nossas palavras e conceitos apresentados.Exemplo: partem do pre-susposto que,se a mulher não quer ser tratada com "educação"(que chamamos de respeito digamos assim,porque "cavalheirismo" para eles parte deste princípio) então,ela quer ser tratada com brutalidade.A mesma coisa se aplica quanto á nossa liberdade sexual,que foi distorcida e comercializada pelo machismo,tanto que ser objeto sexual hoje é sinônimo de "liberdade".Vocês sabem perfeitamente que eles não baixam a guarda e estão sempre dispostos a re-inventar nossa opressão.
E sim,esta estagnação é mais característica no Brasil do que em outros,porque aqui nem sequer vc pode contar com o apóio de grupos sérios,sendo que no exterior,mesmo ocultados pela mídia dominante,isso é possível.Basta compararmos nossas conquistas com as de mulheres na Europa e EUA,por exemplo.
E as empresárias etc,seria para o feminsimo em si,para estratégias de marketing,para geração de empregos para as mulheres,incentivo com programas para as mulheres se interessarem em ciência,partir para ações transformadoras ao invés de se restringir a teorias...não me referi a estas ordinárias,que só servem para provar que não adianta a mulher trabalhar e estudar se ela se enxerga como um objeto;seria mais útil estas ordinárias serem donas-de-casa do que ficarem reforçando esta ciência maldita que se recusa a sair da Era Vitoriana.É inegável que o que impede a queda do sistema machista são as mulheres machistas,por isso que temos que catar empresárias etc,coinscientes e trazê-las para a luta,e claro,prestar bastante atenção no material produzido para não criar aberturas para contra-ataques dos falocratas.

abraços igualmente podres XD

Madressilva disse...

Ah,só para adicionar...eu vi a tal reportagem...quanta besteira!!Não acredito que as mulheres não tenham senso crítico para perceber o quão estúpidas tais afirmativas são.Além do mais,a Veja é considerada uma das revistas mais conservadoras do país,é da editora que promove a Playboy sem nem ao menos ter pensando em introduzir a Playgirl no Brasil,então,não me surpreendo.E os falocratas etsão mesmo desesperados...até apelando para ciência de fundo de quintal que coloca pesquisa americana á cima de tudo,sem relevar particularidades dos outros países( etnocentrismo),convenhamos...só falta aquele velho papo de que "feminista é mulher neurótica".Vamos ver até quanto tempo eles vão conseguir se segurar XD!

maças.podres disse...

Dialogo Dialético
A cordialidade é um instrumento de poder ideológico.
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1.Madressilva:
“Mesmo assim,vcs deveriam mudar o termo”
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Maçãs podres: Cordialidade vem da palavra latina cor, cordis, que significa coração, ação pela emoção. O mito da cordialidade serviu de instrumento ideológico para designar o povo brasileiro como um povo pacifico e ordeiro (Sergio Buarque de Holanda). E este mito acaba camuflando as opressões de gênero, ou seja, um homem cordial que vem agredir uma mulher, ele agiu no calor das emoções, portanto ele não pode ser considerado um homem machista. Exemplo: Norminha e Abel. (Novela: Caminho das Indias)
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2.Madressilva:
“ou analisá-lo sob outro ângulo”
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Maçãs Podres: Como observou Simone de Beauvoir: “(...) quando duas categorias humanas se enfrentam, cada uma delas quer impor a outra sua soberania (liberdade); quando ambas estão em estado de sustentar a reivindicação cria-se entre elas, seja na hostilidade, seja na amizade, sempre na tensão uma relação de reciprocidade.”
A Cordialidade masculina não foi conquista e nem invenção das mulheres.
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3.Madressilva:
“Digo isso por experiência própria: tenho visto machistas de plantão se agarrarem em qualquer coisinha para nos atacar,distorcendo nossas palavras e conceitos apresentados.”
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Maçãs Podres: Ser tratada de igual para igual, para muitas mulheres é sinal de brutalidade e sem contar que as mulheres não foram criadas para o enfrentamento, ou seja, a brutalidade é a arma social do homem quando as mulheres possuem um projeto próprio.
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4. Madressilva:
“Vocês sabem perfeitamente que eles não baixam a guarda e estão sempre dispostos a re-inventar nossa opressão.”
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Maçãs Podres:
Como dito acima a cordialidade é uma invenção dos homens, pois ao acreditarem que são superiores, não nos vêem ou respeitam como iguais. A cordialidade tem como pressuposto básico o mito da fragilidade feminina.
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5.Madressilva:
“E sim,esta estagnação é mais característica no Brasil do que em outros,porque aqui nem sequer vc pode contar com o apóio de grupos sérios,sendo que no exterior,mesmo ocultados pela mídia dominante,isso é possível.Basta compararmos nossas conquistas com as de mulheres na Europa e EUA,por exemplo.”
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Maçãs Podres: É por tal motivo que formamos o núcleo de Estudos de Gênero Simone de Beauvoir. Nosso objetivo com o blog é disponibilizarmos fundamentos teóricos capazes de estimular o conhecimento cientifico de mulheres e promover um enfrentamento radical contra o machismo.
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6.Madressilva:
“E as empresárias etc,seria para o feminsimo em si,para estratégias de marketing,para geração de empregos para as mulheres,incentivo com programas para as mulheres se interessarem em ciência,partir para ações transformadoras ao invés de se restringir a teorias...”
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Maçãs podres: Projetos como este já existem e são aceitos na maioria dos espaços acadêmicos, tanto é que temos um montante de estudos sobre esta questão, o grande problema é que nenhum deles possui o objetivo de uma transição comunista.
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Conclusão:
Para nós mulheres pensarmos em um mundo sem o machismo é necessário um projeto feminista. Temos que compreender que este mundo é uma porcaria para toda a humanidade e todos os projetos masculinos são reflexos deste mundo que está e sempre esteve contra nós!
Como diz a Simone de Beauvoir: "O mundo sempre foi dos machos!" E já é hora de mudar.

abraços Maçãs Podres