20 de set de 2010

Pornografia e Prostituição - Uma breve história dos mecanismos de opressão dos machos





Vênus de Willendorf
Este texto é uma continuação do texto

Inicialmente, as representações do corpo feminino constituíam-se símbolos de fertilidade. A Vênus de Willendorf, esculpida por volta do ano 30 000 a.C, apresentava seios fartos e flácidos, nádegas enormes e um ventre descomunal. Eis que as formas “arredondadas” constituíam-se em signos de força física em abundância, pois é possível acreditar que os cultos de fertilidade não se restringissem apenas ao sexo procriativo, mas as necessidades humanas de sobrevivência como um todo.
Com a instauração do patriarcado, a nudez feminina passou a um patamar hierárquico abaixo do pênis. Em Roma, por exemplo, o deus Príapo, com a deformação de um falo descomunal, representava o culto a fertilidade. Sua adoração era quase uma exigência do poder institucional de Caio Otávio Augusto, após sua vitória sobre o Egito. 
Representação do deus Príapo
Para sustentar a artificialidade simbólica do pênis é preciso  muito mais que expor e associar ideologicamente o corpo feminino “a imagem excitante da nudez erótica”. Foi preciso que os machistas instauraram a violência institucional e a opressão estatal do patriarcado sobre os corpos femininos em nome da coerção social. A violência sobre as mulheres foi em um número muito maior do que qualquer obelisco fálico construído no mundo.
Na polis Grécia, eleita “o berço da civilização ocidental”, todas as contradições de classe sexual do patriarcado  se encontraram presentes devido a privatização do corpo feminino, a escravidão dos corpos derrotados nas guerras e a exploração dos corpos pobres. Os conflitos desta condição histórica acabaram então por reproduzirem-se nas relações sexuais e nos processos de dominação entre indivíduos. Mesmo que não tendo o mesmo significado do capitalismo, o corpo feminino já era uma moeda de troca interpessoal dos machos gregos.
No santuário de Afrodite, por exemplo, ocorria que os estrangeiros, principalmente comerciantes, podiam procurar os serviços das “escravas sagradas” como forma de “integração e hospitalidade” com os cidadãos locais, para que se fossem feitos “bons negócios”¹.
Segundo o historiador Nicandro, já no século VI a.C., o legislador grego Sólon tomou a iniciativa de abrir casas e instalar nelas garotas “compradas”, por estar preocupado em “acalmar os ardores” dos homens. Desta maneira ele “estabeleceu os primeiros prostíbulos (laicos) em Atenas, com o objetivo de dar vazão às necessidades sexuais dos jovens, protegendo desta forma os respeitáveis lares atenienses”².
Culturalmente então, as relações sexuais tornaram-se um instrumento de projeção e mediação dos tensos conflitos sociais e das relações de gênero, projetando no “sexo” e nos órgãos sexuais os mesmo conflitos históricos de diferenciações de classe.
A associação popular entre a pornografia e a prostituição não é “devaneio feminista”, é história. Etimologicamente, o termo “pornografia”, significa “escrita sobre prostitutas” e vem dos registros feitos sobre os comportamentos e práticas sexuais relativas à prostituição. Entretanto o atual entendimento sobre o que é “pornografia”³, refere-se à produção industrial capitalista que objetiva “representar” práticas sexuais, a fim de despertar a libido nos observadores.
Para as Maçãs Podres, a pornografia é um “modelo de comunicação masculino de massa” que decodifica os signos do machismo para homens e mulheres. Neste produto comercial imposto pelos homens, o pênis representa uma metáfora dos mecanismos e poderes estruturais do patriarcado, simbolizando uma arma controladora da sexualidade humana, pois consta nos filmes pornográficos a mensagem de que é através do pênis que se torna possível medir o poder (de dar e sentir prazer sexual) humano.

Texto: Ana Clara Marques e Patrick Monteiro
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1 - O ritual da prostituição sagrada e a economia em  Corinto Arcaica - de Alexandre Carneiro Cerqueira Lima'

2-  História de Colofón - de Nicandro
3- O pornô como experiência urbana - de Patrick Baudry

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