2 de jul de 2012

FEMINISMO E PROSTITUIÇÃO EM TEMPOS DE CRACK


Fundamentalmente existem temas muito caros, e basicamente, o feminismo que conhecemos estabelece uma forte relação como o modo de produção capitalista, pois quase sempre “o feminismo” é a voz das “excluídas do trabalho”, a voz das mulheres que “buscaram as ruas”, que a duras penas “conseguiram” gritar, mas que, de um modo ou de outro, sem grau de valor aqui, estavam dentro de uma faixa mínima de consumo, que possuíam o mínimo de condições econômicas para gritar, o que não é o caso de todas as mulheres. Para dar conta disso e construir um calidoscópio empírico de como é a condição destas mulheres que, de tão invisíveis, são tão marginalizadas, não se encontrarem presentes nem mesmo na memória combativa do feminismo atual brasileiro, nos últimos meses, circulamos de carro pelas ruas que compõem algumas das “cracolândias” da Grande São Paulo, em busca abrir um registro sério sobre este tema. Algo diferente dos outros textos existentes na blogosfera feminista, que aqui não fale da "epidemia de Crack", que nada mais é do que um “outro” consumo de cocaína, tanto em seu aspecto comercial de venda quanto de ingestão no corpo, mas que represente a questão das mulheres em situação de rua, mais especificamente, as dependentes de crack, levantando a bola para a nossa responsabilidade feminista perante elas.
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Inclusive, infelizmente, mas por motivos óbvios, sem podermos identificar nenhuma das usuárias que se dispuseram a conversar, por própria vontade e proteção das mesmas)


O CAMPO MINADO DAS CRACOLÂNDIAS
De um lado estão ‘os exércitos do governo’ e do outro, o ‘Estado Paralelo’ (os fornecedores de crack), e no meio da rua estamos nós, as feridas da guerra” [usuária anônima]
 
Para que as Maçãs Podres tenham a real visão do que são as “cracolândias”, basta imaginarem as zonas de guerra. Segundo descrição das usuárias, “os exércitos do governo” (normalmente compostos pela Policia Militar e Guarda Civil) atuam como tropas invasoras, algo próximo do que é mostrado nos filmes Platoon ou Pecados de Guerra, pois em nome do “bem comum”, “da luta contra as drogas”, inúmeros desrespeitos aos direitos humanos individuais são relatados. Das já costumeiras violências noticiadas na grande mídia, até a construção de um “cadastro policial de dependentes químicos”, onde est@s têm sido obrigad@s a posar com uma placa numerada no peito, enquanto recebem “esculachos” dos policiais.
Enquanto isso cabe as tropas do ‘Estado Paralelo’ atuarem como instituição normativa da “ordem estabelecida”, “coibindo” desde assaltos aos moradores próximos às regiões de consumo até “as badernas, barulhos e aglomerações causadas pelos usuari@s”. Tudo isso para “não incomodar a vizinhança”, sendo, o mais interessante saber, que as técnicas de coerção são basicamente as mesmas do outro exército: uso de ameaças de morte e de força física.
No fundo, o que estas pessoas revelaram é algo muito complexo, um conflito expansionista de proporções amplas, com interesses puramente econômicos muito maiores que qualquer conceito moral, pois, numa perspectiva histórica de luta de classes, a Polícia atua com o objetivo de impedir a expansão do empreendimento comercial das drogas, evitando principalmente sua visibilização dentro da classe média social e, consequentemente, evitando o surgimento de uma “nova camada burguesa”, composta por mercadores oriundos de favelas. “Microempresários” estes que objetivam aumentar seus lucros a qualquer preço e que estão dispostos a investir grandes somas na aquisição de “equipamentos” para a ampliação de seu negócio. Estes últimos agem ilegalmente, mas sob as regras do mercado da livre iniciativa e concorrência, estabelecendo como toda empresa uma defesa voraz de seu território de consumo. Mas, como ocorre em toda guerra, no interior do conflito se encontram as maiores vítimas: a população desarmada.
Alheia as decisões de ambos os governos e exércitos, as vítimas são consideradas como potencialmente “inimigas” ou usada como “escudo de justificação e defesa”, por ambas as tropas. Famintas e destroçadas pelos interesses do conflito econômico, fazem de tudo para sobreviver. Inclusive, em troca de qualquer pedaço de pão, submetem (-se) à prostituição as mulheres da região.

OS VELHOS DAS REDONDEZAS E OS HOMENS EM BELOS CARROS: OS CLIENTES DAS DEPENDENTES DE CRACK

 “Essa seria uma ótima inscrição para o meu túmulo: ‘Onde quer que ela fosse, inclusive aqui, era sempre contra sua melhor vontade’.” [ Dorothy Parker ]

Entre as coisas que nos chamaram mais a atenção, estava a circulação de “carros normais” nas regiões de consumo de crack. O que muitas vezes são consumidores de classe média, estacionados nas ruas, a espera de sua encomenda, outras tantas são também clientes a espera de mulheres (e meninas) dispostas a vender seus corpos para sustentar sua dependência. E afirmamos que a visão é assustadora. Abaixo descrevemos a situação sobre o nosso ponto de vista:
Eis que pela penumbra circulavam os corpos bestializados de mulheres e homens do crack, cobertos pelos mais sujos trapos, usados apenas para se esconder da noite, da vergonha, dos olhares alheios ou do frio, de peles quase sempre pretas.
Alguns destes corpos eram jovens, magros e estavam grávidos, mas ao que parece nada disso era suficiente para inibir os desejos imundos dos porcos que enxergavam, na latrina social, uma oportunidade feroz de saciar a fome de seus instintos sexuais.
Podemos dizer que era quase um ritual de caça, a diferença é que as presas estavam tão vulneráveis, tão “domesticadas”, que se dirigiam voluntariamente para a armadilha de seus predadores, sem nem hesita.
Talvez o cheiro úmido da miséria aguce as narinas destes degenerados, estimulando-lhes o olfato e a saliva, mas foi por demais inocência nossa não entender de cara o óbvio, pois o fetiche de subjulgar sexualmente os corpos com o sexo pago, sempre escorreu das gorduras do patriarcado como um líquido que ressuma das carnes decompostas.
Se por naturais vezes é deveras repugnante pensar em prostituição, principalmente quando tal representação incorre na real violência que tal ato significa, como nos casos de exploração sexual infantil ou pedofilia, todavia pior ainda é quando o chorume produzido nesta condição é substancialmente mais sórdido, ao elevar um estado de degradação a uma “circunstância”, a uma “contingência”  que brutalmente descaracteriza a responsabilidade de  uma sociedade acostumada a individualizar as “fraquezas”, melhor dizer, fragilidades, ao invés de subvertê-la.
É nesta condição que “ser mulher em situação de rua”, independente do adubo da droga, é basicamente sinônimo da mais baixa prostituição, onde o sêmen expelido pelo lodo amarelado da indiferença social fortalece e avaliza os vermes que passeiam como larvas, por entre as entranhas das nossas vaginas, fazendo com que o sexo possa custar um valor ainda menor do que os miseráveis três reais que valem uma pedra crack.
Muito mais do que criar “farrapos de mortos-vivos”, o crack condensa em-si um conjunto de condições capazes de formar uma nova gama necessária de trabalhadoras do sexo para um nicho de clientes que só encontram satisfação sexual no esgoto da existência humana, pois nos mais escusos becos ou nas vielas mais mal iluminadas, das cidades mais pobres as mais abastadas, o produto fétido da prostituição nunca precisou de adubo para ser fertilizado, já que, para que existisse a prostituição, sempre bastou que existisse exclusão social suficiente para que também exista gente disposta a pagar o preço mais miserável do corpo das mais necessitadas, ou não é este o resultado histórico da opressão masculina?

O PERFIL SOCIAL DAS USUÁRIAS 

Mas é preciso salientar aqui que o perfil das usuárias que presenciamos é multifacetado, quando se elimina as questões de classe econômica.
Existe lá desde mães de 50 e poucos anos, normalmente catadoras de lixo reciclável, que já consomem crack a uma década, até adolescentes “recém consumidoras”.
Em geral, vimos mais jovens, em fase reprodutiva do que o contrário, fato que condiz com a realidade total da prostituição em geral. São mulheres que funcionam como exército de excedente sexual, reprodutivo e de trabalho. Destas, algumas já possuíam mais de uma gestação e afirmaram ter companheiros também consumidores de crack. Outro fator importante é que existe na rua uma “necessidade orgânica” de que as mulheres encontrem um “protetor de rua”, ou seja, um homem que as “proteja” da violência sexual de todos outros homens que vivem em situação de rua, mas que normalmente, serve de “intermediário” na relação de venda do corpo como os clientes mais abastados, ou velhos da vizinhança, que preferencialmente "conversam" com a garotas mais jovens, ao menos das duas vezes que visualizamos.
Todavia, devido a constante tensão do ambiente, não era de bom tom ficar perguntando sobre estes “clientes de classe média” já que o assunto é tido como um “segredo de polichinelo”, algo que todo mundo sabe, mas não se comenta. Só tivemos acesso a esta informação porque um usuário homem nos relatou que “pras mulheres a vida é mais fácil, porque elas conseguiam o ‘remédio’ fazendo até chupetinha”. O único momento que ficamos de frente para esta situação foi quando uma senhora catadora, que se disse mãe de “três filhos criados”, afirmou que sentia nojo de dois velhos da comunidade (pareciam ter mais de 60 anos) que passaram pelo local no momento, nos cumprimentando, pois, segundo ela, “eles eram ‘safados’, saiam com as meninas em troca de ‘pedras’” (nome popular dado ao crack), inclusive, estes se dirigiam para um matagal, fora de nosso campo de vista, com uma menina bem jovem (com infelizes olhos cor de esmeralda mais barata do mercado).   

 DEIXANDO DE OLHAR PARA O UMBIGO: COMO FICAM AS REIVINDICAÇÕES FEMINISTAS PARA AS MULHERES ESQUECIDAS DAS RUAS?

 “É preciso que haja esgotos para assegurar a salubridade dos palácios” [Simone de Beauvoir]

Admitimos que esta foi a mais dolorosa construção de um estudo que tivemos, dados os riscos a que nos expusemos, as forças armadas e institucionais contra as quais nos indignamos a mexer e a consciência feminista de que existem temas ainda esquecidos ou não estudados. Contudo, sem nenhuma perspectiva de esgotar a questão, temos que levantar pontos de reivindicação que já se articulam com a causa feminista, mas que, todavia, possuem suas especificidades:
Como ficam as questões de saúde pública, assistência social e direitos humanos destas dependentes?
1-Nunca elevamos a maternidade para além do que ela é (sua condição biológica), entretanto identificamos que entre as principais dores destas mulheres em situação de rua está a condição de perder a guarda das crianças (o que na cabeça de muitas é ter roubado o único “bem/direito” que possuíam) para o Estado.
Aparentemente o trauma causado por tal ação é profundo, complexo e punitivo, que sob a desculpa de proteger as crianças, não oferece as menores condições dignas de desenvolvimento humano, nem para as mães e nem para as crianças. Em alguns dos casos relatados, a guarda não foi para os familiares da genitora, como se supõe, pois as crianças parecem, segundo os relatos, ter ficado em abrigos, sem direito de visita regular de tais mulheres (entendam “visita regular” a partir de uma perspectiva facilitada, presente no SUS, onde se leva em consideração a condição social destas mulheres, seu grau de vulnerabilidade física, emocional e sofrimento psíquico que difere dos outros casos de perda de guarda).
Quem sabe devêssemos levar em conta a revindicação de projetos de creches/abrigos que também comportem estas especificidades, onde haja uma rede de assistência social e psicológica capaz de manter a guarda destas crianças, sem maiores danos, e enquanto fosse necessário, evitando a quebra completa do vínculo emocional da dependente, o que pareceu agravar ainda mais sua condição de vulnerabilidade emocional e de relação social.
2-Não menos que urgente seria a efetivação dos tão desejados direitos sexuais e reprodutivos das mulheres (no caso, a interrupção de uma gravidez para as que desejarem), pois é impossível imaginar quantas gestações indesejadas virão das práticas descritas acima e quais os danos psicológicos e físicos que tais mulheres terão ao estabelecerem ações evasivas de abortamento nas condições em que se encontram.
Apesar de sabermos que estas estão incluídas nos números de vítimas de abortos, falamos de mulheres que nem mesmo terão casa para retornar após qualquer prática “mal ou bem sucedida”, que mergulharão num uso ainda mais abusivo para amenizar a dor física e emocional, nas mais complicadas condições de higiene. Mulheres que poderão vir a falecer em cova rasa e ter a vitimação do abortamento encoberto, gerando como causa morte oficial “o consumo de drogas”.
3-Outro fator que nos preocupa refere-se as hepatites, HIV, DSTs e Tuberculose, doenças que tem entre os maiores riscos de incidências as pessoas em situação de rua, usuários de crack em prostituição, principalmente se levarmos em consideração o fato do sexo poder ser praticado em condições de uso abusivo, onde o preservativo pode não estar acessível ou ser facilmente esquecido.
Como fica a condição destas mulheres que, sim, a qualquer momento podem abandonar a dependência, mas que terão como sequela. Se não cuidadas agravamentos sérios e irreversíveis a sua saúde?
Sabemos que a Aids não é mais aquele monstro todo da década de 1980, que a Tuberculose tem cura, mas venhamos e convenhamos existe alguém que em sã consciência que se contentaria em ter que conviver com os agravos de tais doenças?

No final das contas sabemos que nossas considerações finais são, no mínimo, por demais progressistas para o “Governo”, quem sabe estas revindicações só sejam possíveis em caso de insurreição popular feminista, como o exemplo das creches, pois não seria nascida dos lobbys das comunidades (terapêuticas) religiosas, que estão disputando a tapa as migalhas da verba de R$4 Bi, destinada ao Plano de Enfrentamento ao Crack, verba esta capaz de construir 100 mil casas populares, de 40 mil reais, ou 4 enormes centros de tratamento, aos moldes das melhores faculdade de saúde, centralizadas nas principais regiões do país, como toda a tecnologia, infraestrutura e dignidade que tais pessoas precisariam. Mas como as soluções institucionais respondem apenas aos interesses econômicos emergenciais, assim como a Copa 2014, não custa pensar, mesmo que por utopia, que tais linhas possam influenciar a construção de estudos, reflexões, projetos e discursos feministas sobre este tema, mesmo que desviando, só por alguns instantes, os nossos olhares consumidores para longe de nossos reluzentes umbigos medianos, já que corre por ai, a boca miúda, a máxima de que “existem vários feminismos, ao invés de um só”.
GRIF Maçãs Podres

1- Todas as imagens postadas são ilustrativas, e estão publicadas na internet.

2 comentários:

Abel Reit disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
GRIF Maçãs Podres - Anonymous disse...

Abel Reit
Vimos o video, extremamente chocante, dado o conteúdo de extrema violência, não mantivemos o comentário publicado, mas achamos necessário responder-lhe para que saiba que sua postagem
chegou a nossa informação. Atualmente estamos envolvidas com a produção de vídeos e um doc, sem deixar de estudar a possibilidade de reativarmos o blog. A função do blog sempre foi criar um canal de acesso, denúncia, mas principalmente um arquivo de estudo para jovens militantes (onde acreditamos que o mesmo já o é). Caso retornemos a escrever, a violência de gênero por mulheres será um tema com bastante atenção, haja visto que o único que se passa por esta linha é O MITO DA RIVALIDADE FEMININA, todavia ele é mais conceptual do que analítico, merecendo assim uma revisão.
Saudações Feministas!