10 de mar de 2012

3 Questões pra se Entender o FEMINISMO COMUNISTA - de Marx a Simone de Beauvoir, de Mészáros a Sérgio Lessa


Em relação às guerras, acredito que vocês tenham em mente que elas são provocadas não por decisão do Estado em si, mas do Estado enquanto representante executivo dos interesses da classe burguesa. E que, independente das consequências da guerra, o Capital em si, se transforma, criando outras alternativas para sua reprodução.
De acordo com Marx, essas Crises são Cíclicas; mas tem um pensador chamado István Mészáros, que está vivo ainda!, em seu livro, Para Além do Capital, ele diz que estamos vivendo uma fase de crise estrutural do capitalismo, não somente uma crise econômica. E se é estrutural, pode trazer o fim da humanidade, ou a barbárie - onde as forças de produção humanas regredirão - ou trará a revolução proletariada. 
Usamos o termo “proletariado” hoje em dia, para designar a classe trabalhadora e portanto, não burguesa. Mas isso deforma a concepção de proletariado. Vamos lá:
De acordo com Marx, o proletariado é a classe que produz as riquezas MATERIAIS (não dinheiro, ou capital) necessárias a humanidade, como alimentos, roupas, transporte, etc. Bem, como a nossa sociedade é dividida em classes, a dominante expropria a produção MATERIAL (necessária a humanidade), e a transforma em dinheiro, o que permitirá que ela produza capital, lucro, mais valia em si. 
Exemplo: a safra de arroz é colhida por proletários. Eles fazem parte da produção, desde o semeio, aragem, estocagem, etc., todo o processo. No final, toda a produção desse trabalho vai para as mãos do dono - o burguês - da indústria. Ele, o burguês, vai vender sua safra no mercado, transformando a riqueza MATERIAL produzida nas fábricas, pelos proletários, em dinheiro.

(Veja só, imagina se todos proletários que trabalham na produção de alimentos fazem greve! O dinheiro de nada servirá, porque não existe "riqueza MATERIAL", não existe alimento! O dinheiro vira lixo pra limpar rabo!). 
Bom, o que acontece, o Trabalho é realizado pelo proletariado, e o trabalho é o intercâmbio MANUAL do ser pensante com a natureza, transformando-a para garantir a sua subsistência. Como o modo de produção está na sociedade de classes, então, como visto, esta produção, este intercâmbio com a natureza, é expropriado pelo capitalista. Ele então vai pagar para o estado os impostos, para manter outras atividades necessárias e ASSALARIADAS de trabalho; bem como também, ele, o capitalista, vai investir em ciência, tecnologia, etc.; para desenvolver as forças produtivas da sociedade, gerando assim, mais atividades ASSALARIADAS. Estes assalariados recebem dinheiro para trabalhar, seja do burguês ou do Estado. Mas e o dinheiro, da onde vem? Vem da riqueza MATERIAL convertida em capital. Ou seja, o acumulo privado de riqueza MATERIAL, oriundo do TRABALHO PROLETARIADO, permite que a classe dominante, transmute tal riqueza em dinheiro e invista em outras atividades, criando assim, uma classe "de transição", os ASSALARIADOS que não produzem a riqueza MATERIAL da sociedade.  
Assim, temos duas classes de assalariados, os PROLETÁRIOS e os "DE TRANSIÇÃO". A semelhança entre eles é: ambos são explorados para aumentar a mais-valia; a diferença é que os "de transição" não produzem A SUBSISTÊNCIA MATERIAL, seu dinheiro, basicamente, vem em última instância, da exploração dos PROLETARIADOS. 
Portanto, quando a burguesia fala de a classe trabalhadora, ela está mutilando o significado revolucionário do PROLETARIADO. Pois estes produzem a riqueza MATERIAL da sociedade e sem eles, não há dinheiro para nenhuma outra ramificação social. Assim, essa classe, proletária, é a classe revolucionária por excelência, pois basicamente, produz a riqueza, mas não a aproveita; então, ela é mais interessada em destruir a propriedade privada.  
No entanto, a CLASSE DE TRANSIÇÃO tem duas tendências/opções, se unir a burguesia para explorar a classe PROLETARIADA, ou se unir ao PROLETARIADO e acabar com a exploração do ser humano sobre o ser humano - a propriedade privada.


No capitalismo, o que importa para a produção de mais valia é a quantidade, não exatamente a utilidade (valor-de-uso) das mercadorias produzidas. Um exemplo histórico: na idade média, os mercadores, compravam em um feudo o que era produzido e levavam para outro feudo para vender; depois, neste feudo, compravam outros produtos e levavam para outro feudo; e assim, neste processo, não interessava para o mercador, o valor-de-uso das coisas que comprava. Ele podia comprar metais, jarros, ou esterco, merda, não importava para ele; o que lhe interessava, era o valor-de-troca que ele poderia gerar, ao ofertar em determinada região (feudo), algo que este local não produzia, portanto, que não tinha.(Oferta e Procura). Nessa forma de comércio, ele produzia o lucro. 
O importante dessa questão aí, que é econômica, não ontológica, filosofal; é salientar como se intenciona o lucro e a consequente reprodução de capital. Pois bem, adicionemos aí, a parte histórica decorrente da produção industrial e sua relação com o mercado: 
Uma indústria produz determinada mercadoria em quantidade, porque quanto mais mercadorias tiver, mais lucro, logicamente, terá. No entanto, o mercado se dá pela relação entre OFERTA e PROCURA. Como se produz não visando a necessidade de consumo (ou seja, suprir as necessidades humanas, com valores-de-uso); mas sim, visando-se o LUCRO(não se visa atender o ser humano, mais o capital); então produzimos em quantidade para lucrar mais e mais. No entanto, se a OFERTA se torna maior que a PROCURA, a produção NÃO COMPENSA! Ela não trará lucro. Mas o sistema é esse: ele é contraditório por natureza: se você produz para multiplicar o capital, em determinado momento, você encheu o mercado e sua produção não tem mais valor, deixa de produzir mais-valia, etc. 
O processo de produção industrial caminhou para a Crise de 1929 no EUA. E alternativas, como o neo-liberalismo e a participação mais ativa do Estado na economia, começaram a se intensificar mais ou menos nessa época. 
Marx chamava essa forma de produção capitalista de Superprodução e a lógica industrial é a de reprodução de capital; não de suprir as necessidades humanas. Por isso, afirmo que não se trata de ser uma questão ideológica, o marxismo não é uma ideologia em si; mas um estudo sobre o Capital em si e sobre a visão materialista histórica da humanidade. E de acordo com Marx e pensadores do século XX pra cá: o Capital em si, destruirá a humanidade, pois estamos vivendo o período de ABUNDÂNCIA! Então, respondendo a pergunta sobre período histórico de CARÊNCIA e ABUNDÂNCIA:
 A humanidade nunca conseguiu suprir a CARÊNCIA em nenhum dos períodos anteriores ao capitalismo. Entendendo carência como a produção dos meios de subsistência e de produção necessários a sobrevivência e manutenção da humanidade a ponto de poder acumular riquezas de forma a garantir não somente a sobrevivência, mas também a evolução nos meios de produção. No entanto, a partir da Revolução Industrial do século XVIII e o consequente amadurecimento do capitalismo, foi possível, pela primeira vez na história da humanidade, superar a CARÊNCIA, entretanto a humanidade passou para o período de ABUNDÂNCIA, ou como diz Marx, de SUPERPRODUÇÃO, aí reside à contradição:
A humanidade já produz o suficiente para suprir a CARÊNCIA humana e ainda, investir nos meios de produção e de subsistência da mesma, mas por vivermos sob a propriedade privada na forma de produção de capital, de lucro, temos um entrave ao próprio desenvolvimento da humanidade. Se num determinado momento, não se tinha o necessário, portanto não se podia desenvolver a humanidade devido à necessidade constante de se manter as forças de produção concentradas na própria produção; com o capitalismo, as forças de produção se desenvolveram a ponto de superar essa condição. Mas por vivermos em prol do capital, a humanidade continua na miséria e os principais países capitalistas (em torno de 8 a 9, de acordo com o Prof. Sergio Lessa), continuam a manter o capitalismo como sistema econômico responsável pela destruição da própria humanidade, em prol do desenvolvimento do capital. 
Para poder solidificar esse conhecimento, é importante lembrarmos que falamos sobre a propriedade privada e as classes sociais. Pois, noutro contexto, o PROLETARIADO, é a classe social que produz as riquezas materiais da sociedade; mas sua produção é expropriada pela burguesia, para reprodução de capital; ou seja, é roubada dos operários para gerar o lucro da classe dominante. O restante da humanidade vive para reproduzir o capital para a burguesia e assim, a humanidade está se destruindo por causa do Capital. 
Quando falamos em PROLETARIADO, em REVOLUÇÃO COMUNISTA, falamos do fim da produção para fins privados; falamos da produção das riquezas materiais para toda a sociedade, para toda a humanidade; falamos de acabar com a produção para reprodução do Capital. 
Por último, reforço: não é uma economia gerida de forma "irresponsável", mas sim uma economia gerada PARA A REPRODUÇÃO DE CAPITAL. Uma economia assim é uma economia irresponsável por excelência, por natureza; o mundo está se destruindo; as pessoas estão se matando mais e mais; as guerras prosseguirão; a produção de mais e mais para buscar o lucro é que trará a destruição. 
Os países de primeiro mundo só são de "primeiro mundo", por que exploraram os de terceiro e isso não é uma dedução "lógica"; é um fato histórico. Se você deseja que o Brasil tenha um padrão de vida europeu, britânico, estadunidense; você não está fazendo nada mais que desejando que a economia continue capitalista e se mantenha sobre a exploração do PROLETARIADO e da BUSCA DE “UM BEM ESTAR SOCIAL” causado pela exploração da própria humanidade em prol de uma classe social. 

COMUNISMO FEMINISTA  
Temos que hoje existe uma reivindicação feminista que, diante do Estado, reclama democracia e direitos iguais; que reivindica emancipação da mulher, diante do mercado de trabalho; que luta contra o machismo cultural de nossa sociedade. Até onde essas questões podem ser vistas como revolucionárias? 
Bem, de antemão, se faz necessário apontar questões sociais do ser pensante, o ser humano e seu desenvolvimento histórico, até a atual forma de sociedade em que vivemos. 
No livro, “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, no tocante a Engelz, quando este fala que “primeira opressão de classes é a do homem sobre a mulher”, de acordo com Simone, o mesmo acaba por não explorar outras perspectivas, se não a econômica.
Para entender a situação da mulher, ainda nesse contexto, é necessário observar que devido a questões biológicos, como o parto, coube a mulher, em determinado momento histórico, explorar menos a natureza, que o homem, pois este não tinha a limitação imposta por sucessivas gravidezes; portanto, à ele sobrou uma maior liberdade para realizar, nos termos do materialismo histórico, o intercambio com a natureza – a relação transformadora, o trabalho, entre ser pensante e natureza.
É necessário aqui salientar que uma visão complementa a outra e não que temos uma dissociação. Nós, enquanto sujeitos do século XXI, podemos fundir tais conhecimentos, ao invés de separá-los como se tratassem de lutas diferentes, pois a luta é, em última instância, o rompimento com a dominação de um ser sobre outro, seja na forma de classes econômicas ou sexuais. 
Assim, podemos agora atentar para o fato de que no decorrer da história, a dominação do homem sobre a mulher, se instalou concomitantemente, com o surgimento da propriedade privada, só assim foi possível o desenvolvimento econômico, em detrimento da propriedade coletiva à época, que não permitia o acúmulo de riquezas, fator determinante para o desenvolvimento das forças produtivas. De acordo com a visão materialista histórica, foi o surgimento da propriedade privada que tornou necessário, em relação a sua manutenção, a passagem da família sindiásmica, para a monogamia patriarcal. Podemos concluir com isso, que a sociedade privada, sob o domínio do homem sobre a mulher se manifesta, fundamentalmente, na sociedade de classes.
No decorrer da história, a sociedade de classes progrediu economicamente, e passou do modo de produção escravista, para o feudal, com a queda do Império Romano, e depois do feudalismo, para o capitalismo. Ou seja: escravismo, feudalismo, capitalismo; são modos de produção nos quais o domínio de classes se mantém na forma patriarcal. 
Doravante, é importante intencionar que a luta feminista, ao se erigir sobre o rompimento com o patriarcal, só pode existir de fato, como forma de ideologia de uma classe dominada, enquanto lute contra o patriarcado e consequentemente, contra a divisão social de classes e o que é o mesmo que lutar para abolir a propriedade privada; sob pena, caso não o faça, de se tornar uma ideologia burguesa que, de forma deliberada ou não, preservará todas as estruturas sociais que mantém opressão. 
A Dominação Patriarcal e a Ontologia do ser pensante. 
O Patriarcado é uma estrutura social que determina as relações entre homem e mulher, entre si, e enquanto seres sociais, através de regras que definem os comportamentos de ambos os sexos, tendo no domínio da mulher pelo homem sua característica mais evidente.

Como afirmava Beauvoir, é importante salientar que enquanto seres pensantes, a humanidade não pode se resumir a meras questões biológicas, fisiológicas, psicanalíticas; e tão pouco a questões econômicas. Pois os complexos sociais existentes entre a relação do ser pensante com o mundo, suas consequentes transformações recíprocas, e a intencionalidade do homem diante de suas ações perante o mundo, tendo em vista os nexos causais que se dão, impossíveis de se conceber, pois ainda não aconteceram; é que vão construir todas as estruturas da sociedade, sejam elas externas ao ser pensante, sejam elas até mesmo no ser pensante (como parte da personalidade, por exemplo, que se constrói com as próprias experiências do indivíduo diante de determinado momento histórico e decorrente situação social). 
A sociedade é produto de uma construção histórica, e o ser pensante, constrói a história, pois ela é intrínseca a ele e não existiria caso não houvesse a consciência do ser sobre o mundo. Não há então, nenhuma essência humana que não tenha sido criada pelo próprio ser humano, o que limita o ser pensante, é o momento histórico e todas as visões, concepções de mundo e “substâncias” essenciais de determinado período histórico em que se vive (por vivermos numa sociedade burguesa individualizante, temos que todo ser humano tem o direito de buscar sua liberdade, felicidade, independente da sociedade em que vive; o que afasta o ser pensante de si próprio, visto que o ser pensante é um ser social, e a individualidade torna-se dessa forma, uma contradição ontológica nessa mesma concepção do mundo, que tende a destruir o ser individual, enquanto ser social – não há sociedade sem indivíduos). 
Portanto isso nos mostra que a sociedade patriarcal só se mantém, porque se acredita que seja uma essência anterior a humanidade, se manifestando no senso comum como concepções divinas, causas primordiais, determinismos biológicos, etc. Assim sendo, a dominação patriarcal não pode se sustentar ideologicamente se o sujeito oprimido, a mulher, passar a interferir no mundo de forma contrária a essa ideia, o que se manifesta em pequena ou grande escala, numa construção histórica, que levará a nexos causais indeterminados, mas que objetivados, mudarão de alguma forma, pequena ou em grande escala a história da humanidade. 
O Reformismo como forma de manutenção 
No ideal de mundo, temos uma sociedade erigida sobre estruturas que definem a ordem, a ética e os valores sociais. Assim, teremos uma política voltada para atender, na forma de Estado, as necessidades da ordem social. Qualquer mudança que vise alterar as relações sociais, não muda a estrutura do mundo que se tem como determinante para a construção dos indivíduos dessa sociedade. Em outras palavras, as reivindicações que visem apenas mudar a relação dos indivíduos com o Estado em si, não será nada mais que um reformismo; pois a estrutura, O Estado como representante político da dominação de classes e da propriedade privada, não será modificado; o que se mudará são as políticas e as formas de dominação (como é o caso da atual forma de dominação capitalista: a política de democracia). 
A política em si, surgiu como uma forma de organização social regida pelo Estado de classes; que tem como premissa a dominação de uma classe sobre outra, como já expomos acima. Portanto, a negação as concepções ideológicas de mundo, tem que ser totalizantes, e não fragmentações de ideologias como conhecemos hoje. 
Conclusão 
Os movimentos sociais de esquerda, só podem se constituir como uma esquerda revolucionária verdadeira, quando unificados sob a perspectiva ideológica de mundo. Assim, se manifestando como uma contestação não a frações de opressões, mas a toda base de opressões expressadas hoje, na atual concepção de mundo totalizante burguesa individualizante. Portanto, cabe a todos os movimentos, contra a direita, a unificação para a construção de uma ideologia dos dominados contra a classe dominante e que só será legítima, quando toda a opressão: propriedade privada, dominação do ser humano pelo outro ser humano, expressas com a democracia política do Estado burguês; for combatida. Não se constituindo dessa forma, não haverá superação das condições atuais de mundo, portanto, o feminismo, só se constituirá de fato, se for também, um comunismo e vice versa, pois a premissa comunista é a superação da sociedade de classes, assim, da propriedade privada; enquanto que o feminismo, que não caia em pseudo-feminismo, é o combate ao patriarcado, ou seja, a dominação das mulheres pelos homens expressa na sociedade de classe econômica, portanto, uma causa, solidifica-se na outra. Toda forma de luta fragmentada, constitui apenas um reformismo.


Por: Gabriel Brito
GRIF Maças Podres.

(Os textos 1 e 2 foram retirados de troca de correspondências por um email do companheiro Márcio Bezerra)

REFERENCIAS: 
Simone de Beauvoir – O Segundo Sexo
Sérgio Lessa – Trabalho e Sujeito Revolucionário no Debate Contemporâneo DVD 1 ao 6.
Sergio Lessa – Trabalho e Sujeito Revolucionário no Debate Contemporâneo (www.sergiolessa.com) 
Fernanda Marcassa – Estudo sobre: A Origem da Família do Estado e Propriedade Privada – de F. Engelz
O Capital – Volume I de Karl Marx

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