1 de mai. de 2010

A Barriga de Aluguel e a mercantilização do útero contra o feminismo

A inseminação artificial, a barriga de aluguel e a clonagem, constituem-se como provas de que os machos buscam superar sua dependência frente nós as fêmeas da espécie: nossa capacidade de procriação. O desenvolvimento científico nestas áreas nos foi vendido como um altruísmo do progresso científico, uma necessidade humana em garantir técnicas de perpetuação de nossa espécie ou como um instrumento médico para a "satisfação individual das mulheres inférteis" na realização do sonho inalienável da maternidade. Entretanto, os verdadeiros interesses sempre são outros.
Após a introdução da pílula contraceptiva no mercado de consumo (1962), as mulheres finalmente poderiam controlar sua biologia e exercitar sua sexualidade como maior independência. Porém, não levou nem de duas décadas para que a situação se invertesse e o mundo viesse a conhecer, em junho de 1978, o nascimento do primeiro produto do procedimento de fertilização artificial “in vitro”: o bebê de proveta. O que nem todas nós sabemos, é que o procedimento conhecido como barriga de aluguel (o termo técnico é “maternidade de substituição”) é contemporâneo ao da pílula contraceptiva, tendo sido iniciados ainda na década de 1960.
Consideradas um objeto defeituoso, as mulheres com dificuldade de gestação significavam um mercado consumidor que se encontrava inativo e poderiam representar um perigo moral, junto com as que se negavam a engravidar, para o status quo do machismo que naturalizava as diferenças sociais dos sexos através de nossa biologia.
No período áureo do feminismo, não seria tão possível continuar utilizando as tradicionais explicações de como se “constituem” as diferenças entre mulheres e homens, se os valores sobre a necessidade (o instinto) materna fossem abandonados pelas mulheres, graças aos benefícios trazidos pela pílula.

O reflexo psicológico contra a emancipação da sexualidade reprodutiva nas fêmeas
...de nossa espécie foi imediato e pode ser sentido através de números e da imagem deformada das mulheres sobre si mesmas na atualidade.  A obsessão inesgotável surgida nas fêmeas, com dificuldade de gestação, se reflete na crença de que só se pode sentir-se "completa", como mulher, sendo mãe e, nas demais nós, dúvidas foram implantadas sobre suas convicções anti-reprodutivas, já que mesmo “abençoadas por Deus, rejeitavamos o dom da maternidade, como desnaturadas”. A obstinação em que as mulheres se submeterem a intermináveis testes de fertilidade, tornou a maternidade, o sentido de suas vidas, confabulando para reafirmar os valores morais sobre nossa utilidade social. E é exatamente neste ponto que se encontram os verdadeiros interesses por trás desta questão, com conseqüências graves para o movimento feminista.
Socialmente, os ganhos masculinos e econômicos dos métodos artificiais de concepção foram gigantescos, pois fez com que as mulheres, reacionariamente, supervisionassem a vida das outras mulheres, pressionando-as a reproduzirem e confirmarem a gravidez como destino biológico, o que mexeu com a auto-estima daquelas que não se enquadram neste contexto.
A opressão decorrente destes fatos poderia ser descrita como surreal ou kafkaniana, mas para nossa infelicidade era real, pois incorreu na fertilização de mulheres que nem mesmo criavam as crias que venham a parir, confirmando o poder do seminal como "mais essencial" para a humanidade. Pela primeira vez na história foi instituída a dúvida sobre a maternidade de alguém. A naturalização do sonho materno tinha agora outro argumento para se defender dos ataques feministas e venda do corpo feminino, agora através do aluguel de um útero, estabeleceu um novo parâmetro para o modelo social estabelecido que instituiu a venda aberta do corpo feminino.
No Brasil, o propagandismo sobre o controle masculino de nossa sexualidade e reprodução chegou a gerar, na década de 1980, uma novela de alta audiência como um título homônimo. As conseqüências foram tamanhas que hoje somos um dos paraísos das barrigas de aluguel, gerando uma espécie de “turismo médico a caça de mulheres saudáveis”. Dizem que existem até clínicas de fertilização com cadastros de barrigas de aluguel. As negociações são públicas, com anúncios do serviço na internet e os valores chegam a 100 mil reais quando a dona do ventre tem constituições fenotípicas europeias.
Se não encontram-se estimativas seguras sobre os valores mundiais que esta indústria gera, que não devem ser poucos, já que é um fenômeno global, lembramos que isso é só a ponta de um iceberg, pois a economia da maternidade é extensa, com uma variedade de produtos, como fraldas e mamadeiras, que não podem encalhar no estoque, com a paralisação operária das fábricas úterinas de bebês.
Sem falarmos da decepção que isso causa no conservadorismo das manipuladas "mamães anti-aborto", já que os papais devem adorar a ideia que as suas "castas" filhinhas poderão agora morrer  virgens, mas abençoadas por espermatozóide do espírito santo, desde que possam o caro preço aos empresários da medicina. Tudo isso em nome do progresso científico da humanidade, que trás benefícios para o machismo, reescravizando as mulheres a uma reprodução high-tec.

Texto: Ana Clara Marques e Patrick Monteiro
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fonte da 3ª foto: revista Veja

2 comentários:

Anônimo disse...

eu quero alugar minha barriga pelo minimo de 50 mil reais tenho 28 anos! Tenho 4 filhos com parto normal e sao saudaveis. Pretendo ajudar um casal e ao mesmo tempo me ajudar financeiramente. Grata Andrea.

Anônimo disse...

pretendo alugar a minha barriga,tenho 20anos e kero muito ajudar e ser ajudada