8 de mar de 2011

8 de Março de 2011: o centenário da Cangaceira Mª Bonita e o DIA INTERNACIONAL DE LUTA CONTRA O MACHISMO

Começamos este texto citando um trecho do terceiro capítulo do livro “Cangaceiros e Fanáticos”, de Rui Facó: 
Click na foto e veja imagens de vídeo originais de Mª Bonita
“Num meio em que tudo lhe é adverso, podia o homem do campo permanecer inerte, passivo, cruzar os braços diante de uma ordem de coisas que se esboroa sobre ele?”
Se a resposta é não, imaginem o quão era adversa esta mesma condição para as mulheres. Então, no que chamamos de DIA INTERNACIONAL DE LUTA CONTRA O MACHISMO, nós Maçãs Podres escolhemos publicar uma mini biografia da cangaceira Maria Gomes de Oliveira, ou simplesmente Mª Bonita, no dia do centenário de seu nascimento.
Nascida em 8 de março de 1911¹, Maria Bonita, cumpriu o destino comum das mulheres de sua época, casando-se com José Miguel da Silva, aos 15 anos, sapateiro e conhecido como Zé Neném. Daí em diante sua história travou uma luta contra a condição feminina. Por um golpe de sorte, Zé Neném era estéril, evitando-lhe as sucessivas gestações. Consta que o relacionamento era conflituoso e, a cada briga, Maria Bonita tinha a coragem de sair das asas do marido e buscar refúgio na residência dos pais.
Em 1929, durante uma destas “fugas domésticas”, ela por ajuda da mãe, dona Maria Joaquina Conceição Oliveira, que disse para Lampião da admiração que sua filha sentia por ele, Mª Bonita começou a escrever sua existência, reencontrando Virgulino Ferreira que costumava aportar na fazenda de seus pais.
Em um mundo submerso pelo fanatismo da fé cega, pela aridez do escaldante sol semidesértico, espinhos de cactus e opressão patriarcal dos grandes coronéis e milícias do Estado oligarca, o Rei do Cangaço  convidou-a para ser a primeira mulher a integrar um grupo de bandoleiros do sertão (1930).
E com certeza, não só pela beleza de seu padrão físico, cultuada na época, mas pelo imperativo de suas reações contra tudo a que ela se opunha na condição de mulher, que Mª Bonita sobrevive a oito anos de “bandolagem”, sendo ferida apenas uma vez e tendo três abortos, pois mais do que qualquer “cangaceiro ou fanático (os seguidores de Canudos) que eram os pobres do campo que saiam de uma apatia generalizada para as lutas de ‘começavam’ a ter um caráter social”, Mª Bonita era um ser humano muito forte, dado o contexto existencial em que teve a disposição de se inserir.
No dia 28 de julho de 1938, durante um ataque, um dos casais mais famosos do País foi brutalmente assassinado. Segundo depoimento dos médicos que fizeram a autópsia do casal, Maria Bonita foi degolada viva. E sua cabeça exposta para a sociedade.
Segundo bem escreveu Facó, :
“em uma sociedade ‘primitiva’, com aspectos medievais, semibárbaros, em que o poder do grande proprietário era incontestável, até mesmo uma forma de rebelião primária, como era o cangaceirismo, representava um passo a frente para a emancipação dos pobres do campo”, e que também pode servir de exemplo bem atual para o feminismo combativo que não comemora datas, mas que se indigna contra a inércia social e todos os dias declara guerra contra toda e qualquer opressão contra as mulheres.

Abaixo as Maçãs Podres
poderão ler uma entrevista com a ex-cangaceira Aristéia Soares de Lima, publicada na Folha online:
http://www.folhasertaneja.com.br/especiais.kmf?cod=8242456&indice=0
O link acima oferece um outro texto
sobre as mulheres no cangaço 
Folha Sertaneja: Onde a senhora nasceu, D. Aristéia?
Aristéia - Nasci em Lajeiro do Boi, em Capiá da Igrejinha, em Canapi – Alagoas.
Folha Sertaneja – Porque virou cangaceira?
Aristéia - Entrei nessa vida porque ou a gente corria ou o cacete comia. A vida da polícia era matar o povo, esbagaçar com tudo. Nós sofremos muito por causa da polícia, meu pai apanhou tanto. Até morrer, meu irmão viveu com uma orelha faltando um pedaço de uma coronhada de mosquetão dado por um soldado. A polícia perseguia a gente que só o diabo. Eu vivia correndo com medo da polícia, me escondendo na caatinga, fui pra casa de uma tia lá dentro da caatinga. Óia, nós sofremos muito.
Folha Sertaneja – Aí, resolveu entrar pro cangaço...
Aristéia – Foi. Pro bando de Moreno.
Folha Sertaneja/João – No tempo em que estava nesse bando, tinha outras mulheres?
Aristéia – Só era eu, Durvinha e outra mulher, Quitéria, filha de Zé Demézio lá do Barro Branco.
Folha Sertaneja – E esse bando tinha quantas pessoas?
Aristéia – Seis ou sete depois ficamos sós nós quatro. Mreno, eu, Durvinha e Cruzeiro.
Folha Sertaneja – Como era a amizade do povo no bando. Sua amizade com Durvalina?
Aristéia – Durvinha, eita! (suspiro) A Durvalina era boa com a gente! Seja ela pra Jesus Cristo!
Folha Sertaneja/João – As fotos que Benjamin Abrahão fez de Lampião foram perto da roça do seu pai. A senhora conheceu Benjamin?
Aristéia – Ele andava lá na casa de uma velha, mãe de Otacília e a bicha tinha uma vontade tão grande que ele se casasse com ela. Mas oh bicho feio. Andava com uma bolsinha, uma atiracolo, assim de lado. Eu me lembro da bolsinha dele. Quando ele ia dormir lá não era pra ir nem lá na casa nem pra casa do meu tio. Não era pra andar de jeito nenhum. Ela tinha um ciúme danado, pra fia casar com ele. Mas logo, logo, mataram o Benjamin em Pau Ferro.
Folha Sertaneja – A senhora conheceu Lampião ou tinha vontade de conhecer?
Aristéia – Não conheci, nem nunca tive vontade de ver ele. Nenhum pingo de vontade.
Folha Sertaneja – A senhora também não conheceu Maria Bonita?
Aristéia – Não senhor, eu vi ela ali no retrato mas não achei essa boniteza demais não. A Durvinha era em primeiro lugar mais bonita das que eu todinhas. E vi Neném, mulher de Português, a de Pancada, que era doida, Dada, de Corisco, Nacinha de Gato...
Folha Sertaneja/João – A senhora estava na hora do tiroteio em que Cícero Garrincha foi baleado?
Aristéia – ‘Tava, tava eu e um rebanho e nós corremos. Moreno foi quem ficou danado atirando. Nós corremos pra bem longe e ele caminhou muito. Quando já tava escuro ele caiu e ficou gemendo e pedindo água mas onde é que a gente ia buscar água pelo amor de Deus? Aí Durvinha tinha um frasco de água de cheiro e botava um pouco na boca dele mas ele logo morreu.
Folha Sertaneja – A senhora chegou a ser presa?
Aristéia – Não senhor. Eu fiquei debaixo de ordem, no mês de Maio. Em Julho, mataram Lampião.
Folha Sertaneja/João – E como foi que a senhora saiu do cangaço?
Aristéia – Porque mataram os do grupo que tava comigo aí Moreno disse: Quer ir embora? Eu disse: Quero. Aí ele disse – Vá embora com Deus e Nossa Senhora pra onde tá sua família. A minha família era em Santana, Campo Grande. Aí, eu fui embora. 'Tô morando há 4 anos aqui, com meu filho, netos, já tenho uma tataraneta mas sinto muita saudade da minha casinha lá no Capiá e de vez em quando eu vou lá.
(LEIA: "Moreno e Durvinha – Sangue, amor e fuga no cangaço" – João de Souza Lima – Editora Fonte Viva – Paulo Afonso-BA – 2007)
Viva Mª Bonita, Dadá,  Aristéia, todas as Cagaceiras e Mulheres.
Viva o Movimento Feminista!
Texto Ana Clara Marques e Patrick Monteiro
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¹-Segundo o Antônio Amaury, existem indicios que Mª Bonita poderia ter nascido por volta do ano de 1908, mas para convenções históricas ficou resgistrado a data citada no texto.
Fontes:
http://www.folhasertaneja.com.br/especiais.kmf?cod=8242456&indice=0
http://www.experta.com.br/tariqexperta/nos/elas_ousaram.html
http://joaodesousalima.blogspot.com/2010/01/os-filhos-do-rei-do-cangaco-por-joao-de.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Gomes_de_Oliveira

Cangaceiros e Fanaticos, de Rui Facó

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