23 de set de 2010

Publicidade e Pornografia Simbólica

Este texto é continuação dos textos "Pornografia Feminista - As filiais da indústria sexual , "Pornografia e Prostituição - Uma breve história dos mecanismos de opressão dos machos" e Pornografia - Enciclopédia sexual dos machos



Códigos para além do sexo explícito
Se nos dias atuais algum menino ou menina não for atingido pelo machismo sexual através da pornografia ou da família patriarcal, temos então a publicidade para dar uma forcinha as diferenciações da submissão sexual.
Mas tentando fugir das perigosas concepções moralistas que, por pura conveniência puritana, definiram como pornográficas algumas das produções culturais da humanidade e que hoje são consideradas como arte (obras como “Madame Bovary”, de G. Flaubert; “O amante de Lady Chatterley”, de D.H. Lawrenc; os livros de Anais Nin; ou as pinturas de Miguel Ângelo, se são ou não deixaremos para um próximo estudo do tema), estabelecemos como limite de conceituação com as seguintes perguntas: a nudez feminina ou exposição do corpo era necessária para a obtenção do resultado artístico ou publicitário? A utilização do corpo feminino (nu ou insinuando sexo ou nudez) foi o principal motivo para tentar estimular as vendas? O corpo feminino é mostrado como mercadoria a ser consumida pelo público masculino? Em que contexto social a obra foi produzida?

Nós Maçãs Podres já categorizamos neste blog o conceito de Prostituição Simbólica, o que nos interessa agora é avaliar se, principalmente em imagens publicitária, os códigos lingüísticos da pornografia se encontram presentes, porém disfarçados sobre os véus do moralismo sexual.
Usaremos então “as castas” fotos pornográficas do final do séc. XIX e início do séc. XX, em comparação a uma campanha publicitária de uma famosa cervejaria, dando o devido respeito a época histórica que vivemos, pois acreditamos que os conceitos pornográficos surgidos no início da segunda revolução industrial norteiam a propaganda publicitária dos dias atuais. E por tal motivo definiremos alguns dos elementos que a compõem hoje o que chamaremos de pornografia simbólica.
Normalmente, consta nos registros históricos que as modelos que posavam para fotos pornográficas eram prostitutas. Mulheres que complementavam sua renda fazendo este “bico” esporádico. Estas expunham seus corpos nus e semi-nus em registros “fotográficos” a serem vendidos “ilegalmente” para consumidores masculinos ávidos para aliviarem seus desejos e frustrações sexuais em “obscuras tabernas e prostíbulos”. Aqui, não só a figura da mulher, como ela mesma, era uma mercadoria exposta a ser consumida por quem pudesse pagar pelas suas “qualificações sexuais”.
Se as fotos pornôs daquela época, hoje parecem possuir alguma “qualidade artística”, é graças a conjuntura de nosso tempo. Mesmo registradas junto a réplicas de estátuas ao estilo grego-romano clássico, ou copiando pinturas renascentistas como “o Nascimento da Vênus” de Botticelli, sua concepção artística é meramente um enfeite para seu objetivo real: expor o corpo feminino com a intenção de provocar no consumidor uma ereção que lhe leva-se um possível orgasmo.
No ponto oposto, temos foto de uma atriz global (poderia ser qualquer outra), contratada para vender uma droga lícita. Vemos que ela teve as formas de seu corpo alterado, por técnicas de computação gráfica inexistentes em séculos atrás, a fim de ser apresentada de modo artificialmente padronizado para o público alvo da campanha publicitária: os homens.
Assim como esta campanha, todos os dias imagens de corpos de modelos nus, semi-nus e/ou simulando prazeres sexuais invadem nossas mentes. Será que estas imagens poderiam ou não ser consideradas pornográficas?
Respondendo as perguntas conceituais acima, a desnecessária nudez da “atriz global” serve somente para alavancar as vendas da bebida alcoólica em questão. Seu corpo sexualmente atrativo foi utilizado como mensagem/veículo de comunicação no interesse de associar o consumo da mercadoria a satisfação sexual que tal mulher poderia proporcionar. Os produtores da campanha publicitária emitiram ao seu público alvo/consumidor a mensagem de que o corpo feminino é um objeto de mercado disponível a compra/venda. Tanto que eles puderam pagar por ela. Para o público, sobra a imagem dela associada a droga que eles lhes desejam vender.
Com a disponibilização de seu corpo ao consumo visual masculino, a fim de provocar um descabido estímulo sexual nos machos a quem se destina a oferta da cerveja, colocando-a na posição de mercadoria e de veículo passivo da mensagem sexual que lhe associa ao poder do consumo, ou seja, a exposição pura e simples de seu corpo como garrafa/objeto, não nos trás dúvida que os tais elementos que se encontram presentes na publicidade são os mesmos da origem da pornografia industrial.


Parte do texto do Pedro Cardoso
 Não nos aprofundaremos mais no assunto, pois quem quiser ler mais sobre o tema, pode buscá-lo no blog do Pedro Cardoso. Nele o ator e cidadão consciente publicou um manifesto "anti-pornografia", fazendo uma profunda análise dos mecanismo que estão sendo utilizado nas artes visuais para expor/explorar o corpo das atrizes.
Só abordamos este aspecto para comprovarmos que a associação entre os elementos simbólicos da prostituição, da pornografia e dos mecanismos institucionais que associam o sexo ao consumo, e o consumo a masculinidade, elementos que estão presentes além da pornografia tradicional. Para assim, considerarmos como “pornografia simbólica” todas as manifestações de massa com as quais os homens estabelecem códigos sexuais de poder e masculinidade, utilizando como símbolo ou objeto desta linguagem a oferta comercial explícita do corpo feminino. Mesmo que estes materiais não contenham nudez total ou cenas de sexo explícito, consta nelas a mesma determinação original da pornografia industrial: a exposição do corpo das mulheres como o objetivo estimular a libido dos observadores através do consumo.

Texto Ana Clara Marques e Patrick Monteiro

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