22 de ago de 2011

Destruindo o argumento machista de que as feministas odeiam os homens

Sempre que mulheres e homens ignoram as correntes feministas (seu desenvolvimento histórico de luta e de análises sócio-filosóficas) querem finalizar uma conversa ou deslegitimar uma argumentação sobre as opressões de gênero e a necessidade da luta, é comum que se fundamentem nos seguintes truísmos:

“mas as mulheres também são machistas”, “mas o feminismo é um machismo ao contrário” ou “não aprovo nem o machismo e nem o feminismo, pois as feministas também odeiam os homens”.
Já publicamos aqui textos que ajudam as feministas a responderem estas questões (5 Técnicas de discurso para fortalecer a luta feminista) ou simplesmente identificarem que muitas destas pessoas nem querem ouvir nossas colocações apenas querem inviabilizar os debates (O MACHISMO FEMININO). Hoje publicaremos um texto que explica os motivos porque não se pode afirmar que o feminismo é “o simples ódio aos homens”.

O Racionalismo Feminista VS. o Irracionalismo Sexista 
 Como no caso do racismo (ódio racial), o machismo/sexismo/misoginia é uma ideologia que socialmente se instituiu para a manutenção dos privilégios masculinos, após a formação institucional da propriedade privada.
Desta ideologia nasceu um sentimento, socialmente construído, que se fundamenta na idéia de que as mulheres são inferiores aos homens. E foi ou é comum que tal idéia se transforme em ódio quando as mulheres (tanto de modo organizado, quanto de maneira individual) contrariam os desmando da dominação masculina e não se submetem docilmente a dominação e/ou provam, por via prática, que não existem condições físicas, intelectuais ou sociais que confirmem os mitos da desigualdade de gênero, assim, comprovando o quê de fato existe, são limitações econômicas, educacionais e/ou culturais que impedem, nos diversos países e povos, nas diferentes épocas patriarcais, as mulheres de desenvolverem suas habilidades humanas e/ou de atuarmos nas atividades ditas “masculinas”.

Propaganda Machista
Se o marido descobrir que você anda testanto
qualquer marca de café, vão sobrar uns tapas.

 Assim, o ódio contra as mulheres, chamado de misoginia, é um sentimento machista “irracional”, onde o tal homem não busca identificar a origem de seu sexismo (divisão sexual que privilegia os homens), mas apenas reage a insurreição de uma mulher, disparando nele um violento mecanismo de controle para a manutenção de seus privilégios machistas. Exs.:   

O caso que gerou a repercussão
 mundial foi da ativista lésbica
Millicent Gaika. Ela foi atada,
estrangulada e estuprada
repetidamente durante um
ataque no ano passado.
1- Na manutenção do privilégio da liberdade sexual, estupradores torturam sua vítima utilizando palavras de ódio, policiais declaram que os estupros ocorrem porque as mulheres são “vadias”, homens promovem estupros coletivos em mulheres lésbicas (o chamado “estupro corretivo”), como ocorrido com Millicent Gaika.  
 2- Na manutenção dos privilégios do pátrio poder e da propriedade privada, machistas como (Goleiro Bruno ou ex-esposo de Maria Isleine) assassinam com requintes de crueldade ou manifestações abertas de ódio ou se utilizam da antiga Lei da Honra, em que esposos assassinam as esposas por “crime” (que eles também comete) de adultério.  
Marc Lepine,
Femicida autor do assassinato
de 14 Mulheres que originou
a Campanha doLaço Branco
3- Na manutenção dos privilégios econômicos, homens, como Marc Lepine, promovem femicídios, culpabilizando as mulheres por sua condição intelectual e/ou social desprivilegiada.
4- Na manutenção de seu fálico privilégio patriarcal de macho, homens machistas matam outros homens gays por ódio do que há de “feminino” nestes. 
Diferente do machismo, o feminismo se constitui como uma manifestação de luta e resistência social fundamentada no materialismo histórico, ou seja, que busca comprovações históricas para as limitações impostas pelos homens as mulheres.
O feminismo não é simplesmente um sentimento de ódio que brota do nada, o feminismo é um estado de consciência que se fundamenta nos impedimentos legais ou não, criados pelos homens, para a manutenção do Estado Patriarcal.
As leis que proibiam as mulheres de votarem ou de estudarem em espaços públicos (algumas que existem no mundo até hoje), não surgiram por conta das próprias mulheres, não fomos nós quem as instituímos para poder limitar a atuação masculina no mundo, pelo contrário.
Toda segregação sexual, seja ela espontânea ou legal, garantia a apropriação de conhecimento e poder para benefício masculino. Toda instituição moral religiosa sexista se fundamenta na preservação do homem quanto chefe da família, tendo sua aplicação muito mais efetiva e violenta recaindo sobre a desobediência feminina do que masculina. Todo encarceramento familiar proibitivo sobre a sexualidade foi mais severamente vigiado e reprimido sobre os instintos da vagina do que os pênis.
Assim, o feminismo não se fundamenta sobre a égide do ódio aos homens, mas sobre as bases da comprovação histórica da desigualdade imposta aos sexos. Ao se referenciar como “uma mulher feminista”, nós mulheres nos erguemos não com os punhos ou pernas, mas com a consciência e a racionalidade do conhecimento, identificando racionalmente a realidade como ela é. A auto-afirmação consciente é um sentimento de orgulho sobre si, é um racionalismo critico que desmascara os mitos e as mentiras da inferioridade ou superioridade dos sexos, é uma reação de luta ciente pela busca da igualdade que se constrói pela desconstrução dos preconceitos seculares que estão postos há muito na sociedade. Como dizem os adolescentes, é a “saída da Matrix”, que conduz a transcendência para uma nova identidade social CONHECIDA COMO: “A FEMINISTA”.

Mas o que dizer das mulheres que declaram odiar os homens?
Dentro de qualquer processo de re-consciência, de novo despertar para a realidade, de superação de traumas e/ou violências, é humanamente comum que sentimentos de ódio brotem em pessoas que foram violentamente massacradas. Em situações como as de estupro, seqüestro, tortura, tentativa de assassinato, antes do “alívio” e da acomodação dos sentimentos (que posteriormente visa buscar a justiça), as vítimas tendem extravasam as angústias reprimidas com choro ou gritos, algumas vezes, munidos com ódio e/ou desejo de vingança. É natural, pois “a raiva” aqui é uma representante civilizada do antigo instinto irracional de defesa, onde, por vezes, os animais que são ou se sentem agredidos ou ameaçados, acabam reagindo agressivamente, até o momento de novamente sentirem-se seguros.
Assim, também é comum que nós mulheres, em processo de apropriação ou descoberta das violências de gênero que fomos historicamente afligidas, extravasem falas de ódio aos homens, mas esta tende a ser uma fase inicial de despertar da consciência feminista, que quando madura, se desenvolve não por ações de “vingança reacionária” ou retaliação típica de “Klu Klux Klan” ou de “Tribunal do Santo Ofício”, mas por busca de organização política, conquista de direitos e independência econômica. Todas estas muito racionalmente trabalhadas com severas criticas a desigualdade, sem os comuns argumentos de “inversão de papeis” de que somos solenemente acusadas.
Afirmar que o feminismo é fundamentado no ódio aos homens é um truísmo que visa deslegitimar a luta feminista, com o objetivo de colocá-la no mesmo patamar “irracionalista do machismo”. Nós não odiamos os homens machistas, mas somos sim criticas da sociedade que os alimenta e educa. Somos analistas da realidade, tendo como arma de luta os fatos e documentos da história, da sociologia, da antropologia, da filosofia, da psicologia, da arte e da vida. Somos materialistas históricas, a antítese completa do irracionalismo que os machistas tentam nos estigmatizar.
Mas é lógico, que numa última dúvida, que alguém ainda cite a tal revolução feminista, a tal insurreição armada como “crime de ódio ou extermino dos machos”. Como comprovação do ódio existente nas mulheres. Todavia, será mesmo que é?

A insurreição feminista é ódio sexual ou instrumento de luta?

Guerra contra o Irã, Iraque e Turquia, 
rebeldes curdas no início dos anos 1980
numa tentativa de recuperar a soberania
sobre sua terra natal, .
 Insurreição é um termo que se expressa como um ato de “levante popular contra o poder estabelecido”. Para que seja uma insurreição, motim ou revolução, precisa que haja dois fatores fundamentais: Opressor@s VS. Oprimid@s.
Logo, sabendo que todos os níveis de tortura e violência são utilizados pelos opressores/dominadores para se manterem no poder, inclusive estes são drasticamente aumentados na repressão das manifestações de luta dos oprimidos, fica difícil imaginar que no ato de enfretamento direto de uma convulsão social, se pode combater canhões com flores. Assim, a insurreição armada é um mecanismo de defesa dos oprimidos contra os opressores que possuem ao seu lado todos os instrumentos de guerra e genocídio do Estado. A questão é que toda reação de oprimidos que é violenta é mistificada como “ódio” pelo opressor, ao invés de ser identificada como legitima defesa para a libertação. Ex.:
1- Se o governo de Hitler não fosse eliminado, hoje não existiriam mais judeus na Terra. Enquanto poder estabelecido, o Estado Alemão é um genocida, pois matava, prendia, estuprava e explorava o trabalho para seus privilégios econômicos e sociais.
2- O governo de Israel chama de “terrorismo” a reação palestina, mas não foi o próprio Estado de Israel quem tomou os territórios árabes? Como poder estabelecido, a reação palestina é dita como ódio, mas sua guerra “contra o terror” para a manutenção de seu território e exploração do petróleo é “justificável”.
3- As revoltas democráticas dos países árabes contra seus governos ditatoriais são ações de ódio ou são consideradas como atos de libertação?
4- Se a cabelereira Mª Islaine, Mercia Nakagima, ou qualquer outra vítima de crimes bárbaros de “ciúmes ou amor” soubesem o quê iria lhes acontecer e disparassem um tiro em seus agressores e assassinos, seria crime de ódio ou legitima defesa?
5- Se as 129 operárias que foram queimadas vivas, na tal greve de Nova Iorque, de 1857, mais as tidas Bruxas medievais, mais as sufragistas presas, mais todas as mulheres que até hoje de alguma forma são massacradas pelo patriarcado, não precisassem se organizar e reivindicar seus direitos será que precisaria mesmo haver revolução feminista?

Agora, vai pensando ai...

Viva a insurreição do movimento feminista!
GRIF MAÇÃS PODRES

10 comentários:

Raquel disse...

Adorei!
E digo mais: os homens acham que nós, mulheres, importamo-nos com o que eles falam sobre nós. Mas a admiração destes nos é inútil. O que queremos não é nos igualar a eles e sim sermos nós mesmas, plenamente mulheres. Se eles gostam ou não, pensam bem ou não a nosso respeito, isso pouco importa. Queremos, muito antes de uma admiração inútil masculina, a admiração que temos diante de nós mesmas. Queremos apenas resgatar a nossa identidade.

Arttemia disse...

Na manutenção de seu fálico privilégio, homens se organizam no masculinismo (masculismo, men's rights, pós-machismo, neo-machismo http://br4.in/Ps6xd ) apoiados pelo fundamentalismo religioso e conservadorismo, para aprovar leis que modificam ou suprimam direitos adquiridos pelas mulheres, como por exemplo o direito ao aborto, estatuto do nascituro e modificando leis que regem o direito de família ( http://br4.in/us2nz ), etc...

É muito estranho, o oprimido não poder sentir raiva do opressor. Parece que nós mulheres, a quem é negado a simples humanidade por sermos consideradas inferiores, nesse caso temos que ser supra-humanas e complacentes a ponto de, mesmo reconhecendo a própria opressão, não podermos ao menos, sentir raiva de quem nos oprime. Acho a raiva e o ódio um sentimento normal para quem experimenta o sofrimento infligido, a opressão, a violencia real do dia-a-dia ( http://br4.in/iq3Ul ). Acho que sentir raiva/ódio demonstra que a pessoa está consciente do seu sofrimento, que não cedeu ou se conformou e é o primeiro passo para a conscientização, para começar a buscar alternativas a uma situação. As indignadas, as enraivecidas, as inconformadas é que vão partir para tentar mudar o que causou a raiva, a indignação.

Como não ficar enraivecida e indignada com a piada do Rafael Bastos? Com o humor machista do CQC debochando do mamaço? Com homens ditos progressistas e pró-feministas, mas que ao serem questionados por atitudes machistas, não se furtam de reagir ao questionamento com mais sexismo e misoginia? Eu acharia estranho, uma atitude contrária, onde feministas ficassem impassíveis assistindo, mais uma vez, mulheres sendo agredidas e inferiorizadas.

O patriarcado é baseado na misoginia e sexismo e nunca se furtou a praticar, como ainda hoje o faz, todo tipo de violencia; seja física, moral ou sexual contra as mulheres para perpetuar seu sistema de dominação.

O feminismo nunca matou ninguém, o patriarcado misógino e sexista mata todo dia.

Arttemia Arktos

Maçãs Podres disse...

Arttemia Arktos e Raquel

É inegável que a raiva é um ponto de partida necessário para mudanças de comportamento, mas a tese que sentimos “ódio (aversão) dos homens” é usada para deslegitimar nossas ações.
É uma tendência histórica da humanidade que povos q se “odeiam”, ao suplantarem a condição de oprimidos, dominam seus “inimigos” e tornam-se opressores deles. Ao prendê-los os dominantes não se libertam, apenas tornam-se carcereiros de seus cativos. Não é por estar do lado de fora das grades que os carcereiros não estarão em vários momentos dentro do presídio.

Por isso, nós não acreditamos ser esta a proposta do feminismo, não queremos reproduzir os papeis de dominação, dominação esta que inclusive também trás malefícios aos dominadores. A tese feminista é de libertação das opressões e superação dos papeis de gênero.
Inclusive, porque a “Raiva ou Ódio” são sentimentos humanos. Independem de gênero. Mas a questão referente ao feminismo é mais complexa, pois no imaginário da constituição humana, a racionalidade esta para o masculino assim como a exacerbação dos sentimentos esta para o feminino. Enfatizar que mulheres feministas sentem “apenas raiva ou ódio dos homens”, nada mais é que reafirmar uma das bases do mito de nossa inferioridade, afirmando que o feminismo é mais “um sentimento feminino”, pois com “raiva” pura e simples o ser humano age “sem pensar” e se perde sem sua razão.
Sabemos sim que sentir raiva do opressor é humano, mas independe de sexo, viver “da raiva ou do ódio” é sim um empecilho para qualquer transcendência, pois a pessoa que vive assim ,se coloca como reflexo do que foi projetado para ela, não se libertando da sombra do opressor e construindo sua identidade a partir do sentimento do que será feito ao outro. Não é uma ação “para-si”, mas uma ação “para-o-outro”.

Não fazemos feminismo pelo ódio que sentimos dos homens, mas pela ciência de podermos nos libertar da opressão que nos aprisiona. Quando uma “mulher” se liberta das grades do machismo, ela involuntariamente liberta todos os homens (carcereiros) também, pois ninguém se liberta para o ódio, mas para se reconstruir na vida.

O feminismo nunca matou ninguém por ser um instrumento de humanização e transcendência e não de re-opressão.

O feminismo é um estado de consciência alterado que faz a mulher transcender pra um novo papel social ativo, o papel de exigir a autonomia dos destinos de sua vida. Ser feminista é superar conscientemente a construção social que nos tornou “simples reflexo do corpo biológico”, para a condição de agentes de transformação social independente da capacidade reprodutiva. O Feminismo é o resgate de nossa identidade enquanto espécie racional humana. Enquanto feministas sabemos da ciência que até mesmo os sentimentos de ódio são uma construção social que pode ser transformada.

Saudações feministas

Arttemia disse...

Eu entendo perfeitamente, só acho que o ódio/raiva faz parte do ser humano. E mesmo quando mulheres ou mulheres feministas sentem raiva/ódio estão expressando uma condição humana inerente a todos que são submetidos a violencia, opressão e discriminação.

Não estou defendendo que devemos odiar/ter raiva pela raiva e sim que em determinado momento podemos sim, sentir raiva ou ódio sem que isso desmereça a nossa luta.

No mais concordo com o texto e a resposta.

Maçãs Podres disse...

"Não estou defendendo que devemos odiar/ter raiva pela raiva e sim que em determinado momento podemos sim, sentir raiva ou ódio sem que isso desmereça a nossa luta."

Mais uma vez, também concordamos com suas colocações Arttemia...

Saudações Feministas companheira!

galerius disse...

Sobre o caso da moça assassinada,o resultado: o criminoso pegou uns 12,16 anos e em 03 anos estará em semiaberto,livre ,leve e satisfeito com sua empreitada.
Nossa lembrei do que o tal humorista rafinha bastos disse, no seu humor revelou seu mais puro preconceito contra as mulheres desfavorecidas...do que ele entende de beleza.
Qualquer argumento feminista hoje é visto como recalque,coisa de mulher "feia" ... e por ai vai, Desvalorizando o movimento,tachando e marcando quem dele faz parte determinados grupos pensam que calam a luta das mulheres por melhores condições e direitos.
O homem de bem,o homem em genero masculino,que tem carater e dignidade apoia a luta feminista e a entende como sua,por um mundo melhor pelas mulheres de sua familia ,e pela sociedade como um todo .

yumehayashi disse...

Esta estória de o ódio sentido pelo oprimido é patológico é a espinha dorsal de todo sistema opressor.Este não quer somente que o oprimido racionalize a violência que sofre mas que se sinta culpado pór provocá-la e que também se sinta culpado por sentir ódio de quem o agride(opressor).Isos tudo porque o opressor não quer sentir na pele o que ele faz com o oprimido,mas exige o auto-sacrifício deste.Portanto,o ódio que o opressor tem do oprimido é acietável e justificável)( misoginia por exemplo)enquanto o ódio do oprimido é condenável e patológico.

E o feminismo é o único movimento que eu vejo que carrega esta culpa e tem "pena" do opressor.Eu nunca vi um texto anti-americanismo preocupado com o que o americano vai achar ou não(e americanos chamam este ataque contra seu imperialimos de patológico).Eu nunca vi negros preocupados com o que os brancos vão pensar de sua luta...mas as feministas se preocupam de serem rotuladas e em libertar o homem também(como se esse pasasse as mesmas coisas que nós).

Não se esqueçam que o pacifismo e a resignação são características que fazem parte da feminilidade e são inclusive muito desejadas( marianismo).Temos sempre que ter um sorriso na face e acreditar que "só o amor constrói" perante toda violência masculina.Sinecramente,isso tem adiantado? A crescente violência de gênero tem provado que não.

E o que fazemos então? vamos continuar acreditando que o ódio feminino é tão nocivo e doentio como escreveram ou vamos despertar a furia feminina e partir para atitudes enérgicas de mudanças?

E mais: historicamente falando vcs sabem que toda revolução teve violêcia sim: os quilombos,a revolução francesa,as revoltas que tivemos no Brasil...e não acredito que o feminismo sempre foi um movimento teórico como é hoje.Não acredito que teve mulher que não respondeu á altura.A não-agressão na mulher também é bastante desejada na sociedade patriarcal.

Sinceramente eu acho que o movimento feminista tem que parar com esta mania de pousar de "humanista" e realmente começar a clamar por justiça.Enquanto ficamos nessa de "sentir ódio do opressor é bom ou não" milhares de mulheres estão sendo vitimadas pelo misoginia,sem o menor sentimento de culpa dos agressores.

Maçãs Podres disse...

Isolda
Vamos propor uma reflexão, lembrando que o texto acima explica os motivos do porque não se pode afirmar que o feminismo é “o simples ódio aos homens”, inclusive por existirem colocações bem interessantes no seu comentário e lembrando que a proposta é desconstruir um erro teórico lançado sobre o feminismo.
Identificar a patologização do ódio convertido em culpa é identificar mais um dos dispositivos de poder. Porém os dispositivos operam de forma sutilmente diferentes. O que desmascaramos no texto é as afirmações que o ódio contra os homens é sinônimo de feminismo.

Assim, perguntamos a você:

O ódio permanente pelos homens pressupõe a consciência feminista?

O que as feministas sentem pelos homens é o mesmo ódio que os nazistas sentem pelos judeus e que a klu klux klan sentem pelos negros?

Porque o feminismo carrega esta culpa que você se refere?

Como você diz, a luta dos negros e dos anti-americanos não sente culpa em odiar ou ter pena do opressor, mas questionamos qual seria o motivo para que isso aconteça? Ou seja, o que difere o feminismo, enquanto a luta, das lutas de classe racial e anti-imperialistas?

Por fim:

Você estaria mesmo disposta a matar seu pai, seu irmão, seu filho, seu companheiro ou todos os homens que lutarem no mesmo fronte que você, única e exclusivamente, por que eles tem um pênis entre as pernas? Mesmo que reconheça em alguns, muito mais o papel de oprimidos que de opressores?

Você estaria mesmo disposta a matar o índio Galdino, somente por ser homem? Mataria um homossexual não misógino, na avenida paulista, só por ele ter um pênis? Ou mataria um menino negro, como o Juan, por ele ter a possibilidade de produzir esperma?

Até por que existem diferenças entre um genocidio e a revolução, não existem?

yumehayashi disse...

Bom,vamos lá:

O feminismo se difere das outras lutas porque ele se "importa" com o opressor.Nunca vi uma reunião sindical preocupada em que o patrão vai pensar,o mesmo vale para outras causas(anti-imperialismo americano,anti-racismo,etc);em contrapartida,vejo muitas feministas com medo de "ofender o homem" ou parecer "muito radical".A impressão que tive muitas vezes é que estavam mais querendo direitos aprovados pelos homens do que igualdade plena.

E por mais que vcs digam que o homem é "oprimido",não se pode comparar a nossa opressão com a deles,é o mesmo que dizer que a ameaça de estupro de homens na prisão é a mesma que a nossa(já vi homens machistas comparando com o intuito de desqualificar a Lei Maria da Penha)

òdio permanente conra os homens: depende do que uma mulher sofreu com eles.Imagina aquelas garotas do filme "filhos do Sol"(ou qualquer outra sobrevivente de prostituição como as britânicas que conheço) ou a Valerie Solanas,de onde acham que vem toda essa raiva?Por causa de "feministas loucas" não foi.E olha o que Nitz escreveu sobre as mulheres e ainda acham que é uma "crítica social",até mesmo "filosofia"(e o público tenta entendê-lo).Se é uma mulher que escreve,ela é taxada de"louca odiadora de homens":

http://espectivas.wordpress.com/2007/10/26/nietzsche-e-as-mulheres/

É como a Artêmia disse: eles nos violentam e querem em troca sorrisos e compreensão.

E eu não escrevi que deveríamos sair matando homens por aí á torto e á direito( o.o"!).O que escrevi é que temos que ter atitudes mais punitivas em relação aos praticantes de violências machistas,sejam elas físicas ou simbólicas(que por mim,tanto faz serem homens ou mulheres).As estatísticas(e os grafites de vcs) estão aí para provarem o que a impunidade faz.E para ilustrar mais,aqui um tópico no orkut sobre como religião distorce a violência de gênero e culpa a mulher(não é vertente cristã):

http://www.orkut.com/CommMsgs?cmm=244909&tid=5317516503079177016&na=4&nst=1&nid=244909-5317516503079177016-5317935790671514424

Então,num contesto desse,a raiva feminina é positiva.Foi a raiva que me fez procurar o feminismo,e é este tipo de raiva que temos que despertar nas mulheres.Vcs verão que algumas aí tiveram,mas foram logo silenciadas por baboseiras pseudo-espiritualistas(marianismo a lá oriental).

E para finalizar,o que vcs descreveram aí é IRA.É a ira que cega,que é ódio incondicional descontrolado,que gera os serial killers aí da vida.

Aproveito a oportunidade para sugerir texto descontruindo conceito misógeno yin-yang.

abrçs

Maçãs Podres disse...

Isolda,
nós Maçãs Podres pensamos o feminismo objetivando construir condições materiais para que uma insurreição feminista aconteça. Quando escrevemos os textos, não pensamos de forma pragmática, até porque o pragmatismo é uma arma do capital-macho para acalmar uma possível convulsão social. Não adianta pensarmos no feminismo aos pouquinhos. A Simone de Beauvoir e o Karl Marx quando escreveram sobre seus estudos, pensaram o comunismo e a autonomia das mulheres como ações revolucionarias, como se eles estivessem vivenciando a queda do capital e dos papéis de gênero. Para que isso aconteça, é preciso superar qualquer resquício do patriarcado (machismo, racismo e sonho burguês) na consciência plena das mulheres.

Portanto, o “ódio permanente aos homens” não pressupõe uma consciência feminista, pois normalmente esse ódio é de forma individualizada a determinados homens. O ódio delas não é do patriarcado e seus instrumentos de poder (igreja, estado, família) e sim do João, do Pedro e etc. Enquanto um sentimento irracionalista o desejo de punição não se transforma em luta de libertação coletiva das mulheres, muitas buscam justiça, mas rejeitam a todo custo o feminismo ou serem identificadas como feministas. Assim, o ódio por si só bloqueia a construção da consciência feminista que transforma a luta individualizada (de uma mulher contra um homem) em uma luta coletiva (das mulheres contra o sistema patriarcal).

As “atitudes punitivas” que você defende, são mecanismos de poder que mantém sob controle as massas. Os mecanismos legais de poder, chamados de “justiça”, funcionam como amortecedores das convulsões sociais. O Estado Patriarcal implementa “atitudes punitivas” que se destinam há classes sociais e raciais bem especificas, não atingindo portando os verdadeiros representantes do poder patriarcal, como Strauss-Kahn, Pimenta Neves, Roger Abdelmassih. A impunidade ao machismo existe, não porque as mulheres acomodam seu “ódio”, mas por ser intrínseca a legalidade do patriarcado. A lógica das “ações punitivas” é a lógica da família patriarcal que puni as filhas e filhos por desobediência ao poder, é a lógica das religiões que castigam os corpos e mentes com a culpa, é a lógica da polícia, dos professores e dos presídios que implementam cárcere aos negros, como antes era feito de modo privado as mulheres, assim como eram as senzalas. Desta maneira, “o ódio feminino que exige ações punitivas aos homens”, em geral, não pressupõem uma consciência feminista, pois este sentimento não garante uma racionalização critica do patriarcado como um todo, se estagnando num irracionalismo alienado, pragmático e individualista.

Em nossos textos não quantificamos sofrimento e opressões, identificamos com conhecimento de causa o que de fato é o Patriarcado, enquanto modo de organização social e de poder. Já deixamos bem nítido ao longo do blog que toda opressão tem sua história, e nós sabemos muito bem qual é a história do patriarcado. Não há como pensar em insurreição feminista plena, em superação total das condições materiais do patriarcado, em destruição completa dos papeis de gênero, sem pensar no fim do racismo e na queda do capital.

Não há condição de pensar um feminismo autêntico, fora do contexto econômico e racial, também não há como pensar em todas as mudanças radicais propostas por feministas como Simone de Beauvoir, Firestone e Lélia Gonzalez, imaginando que tal movimento aconteça somente no RJ, Brasil ou América Latina. Para ser definitiva (contumax-acis), ela tem que ser coletiva, internacional e propor a desconstrução de todo e qualquer resquício irracionalista patriarcal, com seus pressupostos teóricos e práticos equivocados.

Potencializar as revoluções feministas é despertar nas mulheres (ou demais oprimidos) a força maior da humanidade que é o instinto de vontade, sob forma de razão revolucionária. E isso não se faz apenas com ira, mas com trabalho e intelecto potencialmente conscientizados.

Saudações Feministas