28 de abr de 2011

A Ciência Sexual ou a Sexualidade Feminista?

No primeiro texto deste estudo identificamos que a sexualidade é o modo com o qual cada pessoa expressa sua identidade, se comporta, se compreendem e atua dentro do mundo e chegamos a conclusão que todo ambiente é sexualizado, pois é produto de todos os conflitos e contradições existentes numa cultura, expressando assim, tanto nos aspectos históricos quanto nas práticas econômicas e políticas, os reflexos do controle institucional do patriarcal sobre a vida humana.
Quando se pensa em uma educação sexual feminista é fundamental compreender que será preciso, antes mesmo de “falar de sexo”, colocar em cheque toda a nossa cultura.
Numa perspectiva libertária isso significa dizer que ao questionarmos o desenvolvimento histórico humano abrimos caminhos para que se explorem novas possibilidades de interpretação do mundo e o modo que as pessoas atuam e atuaram nele. Em uma análise, mais reduzida e específica, por exemplo, através de uma educação sexual feminista é possível questionar todas as expressões de agressividade (humilhação e auto afirmação) que hoje se popularizaram com o nome de “Bullying”, como também do que se convencionou ser "masculino ou feminino".
imagem1
TESTE DE EDUCAÇÃO SEXUAL FEMINISTA
Dentro da perspectiva levantada acima, vamos fundamentar este segundo texto num aspecto que interessa diretamente a educador@s, sem que isso exclua qualquer outra pessoa que não o seja, o questionamento da chamada “Scientia Sexualis”.
Ao lado as maçãs podres terão a disposição seis vídeos que exemplificaram, como antítese, exatamente a critica que será feita no texto.
A Scientia Sexualis em oposição à Educação Sexual Feminista
(Antes de iniciar a leitura desta parte propomos que as maçãs podres façam um teste na foto acima [imagem1] se baseado nas conclusões do primeiro vídeo da Discovery Channel.).
 Foucault denominou de scientia sexualis (ciência do sexo) o conjunto de investigações modernas que pretendiam compreender este aspecto do comportamento humano. Entretanto, o resultado desta investigação (definição, esquadrinhamento, experimentos) produziu a multiplicação de mecanismo controladores da sexualidade através do discurso.
Atualmente, o objetivo do mecanismo controlador da sexualidade é construir falsas verdades a partir de conceitos, técnicas e teorias cientificas que se apresentam como “totalmente comprováveis”, em outras palavras, a scientia sexualis tenta construir “verdades absolutas/inquestionáveis sobre o sexo e o comportamento humano”, jogando para o inconsciente (impossível de se provar) as respostas biológicas para a sexualidade humana, todavia, sem nenhuma crítica social e extremamente comprometida com senso comum do evolucionismo e do racismo e “preconceitos” oficiais que determinam “a feminilidade e a masculinidade” a partir dos padrões de beleza oficiais.
O principal aliado deste controle social é o discurso médico que transforma em patologia ou anomalia o que não é heteronormativo e destina conceitos de superioridade moral e estética a heteronormatividade, impondo ao sexo/sexualidade a função da reprodução biológica  (nem precisaríamos lembrar que na construção dos Estados Nacionais Modernos existia uma forte filosofia econômica que se fundamentava na idéia de que “a nação mais rica será aquela que possuir em suas fronteiras mais trabalhadores e soldados” [História do Aborto - Giulia Galeotti]. Para saber mais sobre esta doutrina política leiam aqui e aqui ou aqui.).
Foucault também identifica que o discurso da sexualidade surgido da scientia sexualis gerou um dispositivo de poder sobre o comportamento humano que se integrou aos demais dispositivos terminais de poder existentes (como as leis, a violência ou a religião), e que para nós das MAÇÃS PODRES, consolidaram ainda mais os mecanismos de dominação machista. Assim, a ciência sexual passou a produzir experimentos e conclusões que se integram aos interesses sociais masculinos, respondendo ao interesse econômico (consumo) e patriarcal (dominação e controle dos corpos).
A conclusão de Foucault, em grosso modo, é que tais dispositivos tiveram como conseqüência a histerização do corpo da mulher, a socialização das condutas de procriação (mito da frigidez feminina relegando a sexualidade das mulheres ao nível fundamental reprodução e legitimação  do “incontrolável impulso sexual dos homens” como natural), psiquiatrização do prazer "perverso" (onde toda forma de sexualidade que não fosse heteronormativa era classificada como patológica) e a pedagogização do corpo da criança (doutrinamento heteronormativo institucional da sexualidade humana desde o berço).
Percebam que as principais justificativas que hoje são dadas para legitimar os “desvios sexuais”, a “infidelidade masculina” ou as "diferenças comportamentais entre os sexos” tem como base de suas análises a "inquestionável verdade da genética”, ou seja, a mesma imutabilidade biologicista que se destinou a explicar/legitimar a falsa superioridade racial dos brancos ou mesmo a pretensa “superioridade sexual” masculina.  E é exatamente neste ponto que passamos a entender os motivos pelos quais quando se fala em “educação sexual nas escolas” estamos oficialmente falando de aulas de biologia, ou seja, da matéria que estuda a mecânica do sistema reprodutivo (masculino e feminino), ao invés de falamos de comportamentos humanos, algo muito mais ligado a cadeiras de sociologia, filosofia ou história (que muitas vezes são apresentadas de maneira tão técnica e fria quanto é uma maca hospitalar).
Assim, ao se referir a sexualidade como fenômeno fisiológico (útero, vulva, vagina, glândulas mamárias, testiculos, espermatozoides, cais reprodutivos, etc) as instituições patriarcais excluem todas as caracteristicas fisicas externas que individualizam as pessoas e tiram da perspectiva educacional os motivos estéticos , subjetivos e sociais que geram a "atração fisíca", porque eles estão envolvidos em rígidos valores de ordem moral (cabelo "bom ou ruim",  rosto "bonito ou feio", corpo "gordo ou magro" ou "agressividade masculina vs. fragilidade feminina", racismo, homofobia, etc), que os patriarcas não ousam/permitem questionar com profundidade.
Mas como os dispositivos de poder vêm atuando sobre a sexualidade utilizando-se do falso discurso da liberdade sexual contemporânea? Em que níveis de cominicação nosso comportamento sexual é controlado em favor das estruturas sociais vigentes?

O discurso da sexualidade na mídia e controle sexual nos lares
No Brasil, até o período do regime militar ainda era possível manter a sexualidade dos lares abafada pelos os véus do silêncio e da moral religiosa. Sentados a cabeceira das mesas, como bons pais tradicionalistas, na hora de reunir a família para jantar, as vozes dos meios de comunicação rezavam sob a cartilha da fé dos generais. A homossexualidade era considerada um tema proibido de ser abordado,  com um mínimo de realismo e descência. A extensão do autoritarismo militar representava o espectro da autoridade paterna que mantém sob controle, através do medo, a boca e o sexo dos filhos e das esposas, e a força (armada) da censura significava o dedo em riste da paternidade ou a palmatória da mão castradora da autoridade educacional que tinha como método de controle a negação da sexualidade. Assim os meios de comunicação eram usados como instrumento do adestramento social. Mas mesmo censurada, a sexualidade estava lá presente nas cabeças e forçadamente escondida nas cobertas, como poeira que se varre para debaixo do tapete, da qual não vemos, contudo sabemos que existe e onde se encontra.
Não por coincidência, após a queda do regime militar, a televisão e, mais recentemente, a internet bombardearam a sociedade com imagens e discursos sexuais. E, inclusive, parecem ter produzido novas percepções sobre os comportamentos sexuais. Esta transformação seria um produto democrático e livre, se isso significasse uma verdadeira libertação das correntes normativas do conservadorismo. Mas não é. A introdução do tema sexualidade nos meios de comunicação tem por função ser tão controladora quanto qualquer outra forma de expressão patriarcal. Se hoje os pais falam de sexo com suas filhas é para evitarem uma gravidez na adolescência, se falam sobre drogas é para evitar “a delinquência juvenil”, se falam sobre homossexualidade é pra evitar “o sofrimento social” que estará por vir. É tudo “proteção”. Não se fala de sexo para que as pessoas tenham livre uso do corpo, mas por puro controle. E sabem como sabemos disso?
Apesar da novela ter abordado a temática
 homossexual, o beijo entre as personagens gays
foi "evitado", contrariando a alta espectativa polular

Porque a sexualidade que invade nossos lares, por meio de novelas, séries, reality shows, programas de auditório e filmes se fazem sem a possibilidade de troca ou diálogo. A TV ou o PC na sala de estar ou nos quartos, são o novo altar do padre, o novo púlpito do mestre, em que trocamos o “amém”, da igreja, ou o “sim senhor”, da escola, pelo “fala que eu te escuto” dos telejornais e sites pornôs. Também como na censura, banalizar o sexo através da imagem e dos discursos, na prática significa o mesmo que não mostrá-lo, pois como bem disse Foucault: “falar de sexo é um modo de não fazê-lo”. E, assim, bombardeadas por imagens vazias e discursos neoliberais, as pessoas silenciam os conflitos e as contradições presentes dentro das famílias e dentro de si mesmas, o corpo torna-se então um objeto mercantilizado. Toda propaganda de carro, roupa ou comercial de cerveja usa de imagens ou associações com o sexo para estimularem o consumo e não para um exercício extra-normativo. A grande mídia é utilizada como moedor de carne para alimentar as engrenagens econômicas.
Com os mesmos métodos dos professores tradicionais e catequistas, que falam, falam, falam e só aceita “uma resposta tida como certa”, a mídia oferece o sexo através do consumo (vocês poderão observar a partir do 12º minuto do 3º vídeo), como alívio ou válvula de escape da sexualidade represada e reprimida pelas diretrizes patriarcais.
Cada imagem de vestes curtas e decotadas são feitas para exaltarem as diferenças sexuais entre meninos e meninas que não podem transar em casa e nem na rua. É o “estímulo+proibição=repressão”. Cada cena de moto para que os rapazes da periferia finjam fugir para longe de casa, com o sonho de ter alguma donzela aprisionada na garupa, representam a fórmula da “liberdade+isolamento=poder masculino”. Para meninos homossexuais são ilustrados modernos cortes de cabelo e roupas coloridas, para que possam ser identificados de longe, mostrando o quanto são “estranhos”, como dizem seus pais (individualidade=a consumo). E assim a grande mídia, que antes trabalhava no silêncio, hoje fala para silenciar, “erotiza” para “deserotizar” e, sem censura, mas em descarada surdina, vende produtos como sexo e a sexualidade (comportamento/identidade pessoal) como um produto. A mensagem é: “Para quem possuir dinheiro, o sexo será fácil de ser consumido”, porém, consumido (como excremento) o sexo torna-se mais fácil de ser descartado. A grande mídia introduziu dentro dos lares a idéia de que os afetos libertadores são como dejetos físicos, e que a felicidade e a sexualidade de uma pessoa podem se medidas através do consumo e da propriedade. O consumo é a sublimação do sexo e o consumismo é a sublimação da sexualidade.

A educação sexual feminista como um discurso de “contrapoder”
Se a Globo censura e a igreja proibe, nós não
Segundo Naumi Vasconcelos, “uma aula de educação sexual deixaria de ser apenas um aglomerado de noções estabelecidas de biologia, de psicologia e moral, que não apanham a sexualidade naquilo que lhe pode dar significado e vivência autêntica: a procura mesmo da beleza interpessoal, a criação de um erotismo significativo do amor”. Então, diferente do modo que normalmente se utiliza, o discurso sobre a sexualidade no feminismo possui como objetivo o reconhecimento das individualidades. O sexo deixa de ser uma expressão reprodutiva (conjunto de órgãos fisiológicos) ou consumista e passa expressar um comportamento de respeito interpessoal capaz de superar os valores morais que derivam de qualquer intolerância ao que significa ser “diferente”.
O discurso de contrapoder que a educação sexual feminista deve alcançar, estabelece uma oposição a “transformação de qualquer corpo em mercadoria”. Se a liberdade de expressão abriu as portas para uma sexualidade mercantil que se vê refletida em comerciais de cerveja, novelas e outros materiais pornográficos, a educação sexual feminista visa sensibilizar as pessoas contra a “brutalidade daqueles que foram brutalizados e deram origem a uma nova mitologia sexual”(Highwater). É neste ponto que o feminismo acaba também atingido em cheio o machismo que também machuca alguns homens, pois evita que o corpo masculino se torne uma arma contra mulheres e homens ou que novamente aqueles que foram violentados convertam sua opressão em violência contra crianças, mulheres e outros homens.
Viva o movimento feminista!
Texto: Ana Clara Marques e Patrick Monteiro
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Resposta do teste:
POUCO IMPORTA AS RESPOSTAS DADAS, O IMPORTANTE É QUE VOCÊS SAIBAM QUE AS FOTOS DA PARTE "1" SÃO DE TRANSEX MASCULINOS E DA PARTE "2" ("A e C") SÃO DE TRANSEXS FEMININOS E A FOTO "B" É DE UMA "BONECA GIRL REAL DOLL", ou seja, A RESPOSTA É QUE TODAS AS VARIÁVES DA SEXUALIDADE SE AMPLIAM QUANDO NÃO EXISTE UM DOUTRINAMENTO PATRIARCAL.

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