Por um feminismo étnico de classe econômica
Por convenção, nós feministas nos acostumamos a dizer que existem “vários feminismos” ao invés de um. E por conveniência mútua, nós feministas também nos conformamos com as facilidades estratégicas desta convenção. Todavia, quando pensamos nas dificuldades existenciais do movimento feminista, mais especificamente o brasileiro, nós Maçãs Podres nos perguntamos se já não seria a hora do feminismo teórico agregar em si toda a variedade particular e histórica de cada um dos movimentos de libertação das mulheres numa só utopia¹?
Antes, porém, é necessário entender que a atual conjuntura política que faz com que, cada vez mais, o feminismo se fragmente em “vários”. Não há como negarmos as particularidades, nem buscamos uma totalidade, sem vislumbramos a dinâmica racial que privilegia as mulheres brancas desta sociedade. Sem que venhamos a reconhecer o quanto fomos, somos e nos induziram a negligenciar tal questão. A política da representatividade tem vendido o feminismo como vasos que devem ocupar lugares separados nas prateleiras política dos governos. O árduo trabalho de se construir um feminismo étnico de classe econômica, em sua múltipla completude sexual, abarca a necessidade de reconhecemos o racismo como uma das mais cruéis estruturas do patriarcado, estrutura esta que colocou e coloca as mulheres negras e brancas do mesmo lado, mas em cantos opostos. Já é hora dos feminismos repensarem suas convenções.

A dialética dos feminismos
Não é de se estranhar o encantamento patriota de nosso povo com as cores da bandeira. Este é culto dos olhos verdes, do cabelo amarelo, do “sangue azul” e da pele branca. Ora, depois das armas e da fé, naturalizar as diferenças sociais pelas diferenças físicas não é a mais comum das estratégias ideológicas de dominação?
Em grosso modo, os mitos da superioridade física masculina e da superioridade intelectual branca sempre tiveram como objetivo explorar trabalho dos negros e excluir as mulheres brancas das atividades transformadoras da sociedade. Os colonizadores precisavam de pernas, braços e mãos de obra “fortes” para suas plantações, assim como os homens burgueses ainda precisam dos nossos úteros funcionando como fábricas.
Pelo mesmo motivo ideológico, as mulheres brancas ainda são cultivadas como flores. Os homens negros tratados e xingados como animais. E as mulheres negras exaltadas como “vulcões (sexuais)”. Sobre as mulheres negras e brancas e os homens negros recai a simbologia da natureza que “deve” ser dominada. Entretanto nenhuma construção ideológica se sustenta sem as diferenças econômicas. E quanto mais separados em “lotes”, mais fácil se torna o controle dos oprimidos.